
Pingue-pongue à beira de um ataque de nervos: o caos genial de Josh Safdie
Não há dúvida de que Josh Safdie é um dos principais nomes do cinema americano hoje. Com o irmão Ben Safdie ele dirigiu Joias Brutas e Good Time, entre outros, e agora entrega sozinho Marty Supreme, um dos filmes mais cotados da temporada de premiações.
Estrelado pelo homem da hora, Timothée Chalamet, Marty Supreme conta de forma bem autoral, bem no estilo Safdie, a história de Marty Reisman, um novaiorquino que se destacou no pingue-pongue na década de 50. Reisman era conhecido como “The Needle” (A Agulha) pela sua magreza e precisão. Ele foi campeão nacional e internacional, mas ficou famoso sobretudo pelo seu estilo “hustler” (trapaceiro/apostador).
Tal como no filme, o Marty da vida real era uma figura excêntrica e vaidosa, que jogava de fedora (chapéu), roupas coloridas e apostava dinheiro em partidas contra qualquer um que o desafiasse. Ele manteve o estilo “old school” usando raquetes de “hardbat”, sem esponja, muito depois da tecnologia ter evoluído.
A base do roteiro do filme, escrito por Josh Safdie e por Ronald Bronstein, é a autobiografia de Marty Reisman, lançada em 1974: The Money Player: The Confessions of America’s Greatest Table Tennis Champion and Hustler.
Se alguém duvidava que o pingue-pongue poderia ser tratado como uma questão de vida ou morte, Josh Safdie prova o contrário. Em sua estreia solo na direção Safdie oferece um mergulho alucinatório no submundo dos esportes de mesa da Nova York dos anos 50, transformando um jogo de salão num thriller de alta voltagem.
Filmes temporada de premiações
Quem assistiu Joias Brutas ou Good Time reconhecerá imediatamente o DNA visual de Josh Safdie, mas aqui ele parece operar numa frequência ainda mais específica. A cinematografia é inquieta, colando-se aos rostos suados e às bolas de pingue-pongue que viajam a velocidades imperceptíveis. Safdie filma as partidas, não como desporto, mas como tiroteios ou cenas de combate corpo a corpo.
O design de som é opressivo e brilhante. O som seco e rítmico da bola batendo na mesa torna-se o relógio-bomba do filme, misturado com diálogos sobrepostos e uma trilha sonora que induz ansiedade.
O filme se passa na Nova York dos anos 50, com trilha sonora dos anos 80 e cinematografia do século 21. Safdie constrói uma Nova York que parece saída de uma memória febril. É suja, glamorosa, perigosa e povoada por excêntricos. Ele romantiza a obsessão americana pelo “hustle” (a trapaça, o corre), tratando o protagonista não como um atleta, mas como um viciado em adrenalina.
Martin Scorsese também navegou pelos caminhos tortuosos dos jogadores trambiqueiros, mas os da mesa de sinuca, no filme A Cor do Dinheiro. Só que os galãs espetaculares do filme de Scorsese, Paul Newman e Tom Cruise, não têm similar em Marty Supreme. O Marty Reisman de Timothée Chalamet tem bigode fino, óculos de aro grosso e cabelo penteado para trás. Ele adota uma postura física curvada, quase predatória, de quem está sempre pronto para o ataque.
A grande surpresa é a capacidade de Chalamet de sustentar a energia neurótica exigida por Safdie. Ele fala rápido, gesticula excessivamente e transmite uma arrogância frágil que é magnética. É uma performance de “corpo inteiro”, onde a elegância habitual do ator é substituída por uma urgência suada. Enquanto os galãs seduzem, Chalamet captura a essência do vigarista simpático. Ele consegue fazer com que o público torça por ele, mesmo quando suas decisões são moralmente questionáveis, ancorando a loucura visual do filme numa humanidade palpável.
Marty Supreme é um triunfo do estilo sobre a substância, no melhor sentido possível. É um exercício de estilo cinematográfico puro e comprova que Josh Safdie está entre os maiores da indústria hoje.
A estreia oficial de Marty Supreme acontece dia 22 de janeiro no Brasil, mas em algumas cidades já estão sendo promovidas sessões especiais.
