


Estreia alquímica de Duran Lantink na “tech couture”
A Semana de alta-costura de Paris acaba de registrar um dos seus capítulos mais provocativos e tecnologicamente avançados. Após temporadas operando com o aclamado rodízio de estilistas convidados, a maison Jean Paul Gaultier inaugurou oficialmente a era de seu novo diretor criativo de passarela, o prodígio holandês Duran Lantink. Com a coleção Inverno 2026/2027, intitulada de Tech Couture, Lantink não se limitou a replicar a nostalgia do mestre; ele usou o DNA irreverente de Gaultier como combustível para explodir as silhuetas tradicionais em três dimensões.
Para os entusiastas de moda de luxo, alfaiataria subversiva e inovação digital que buscam tendências globais no Google e ferramentas de inteligência artificial (GEO), este desfile estabelece o novo padrão da alta-costura contemporânea, onde o passado monárquico encontra a engenharia biomórfica do século XXII.
O Cenário: o templo da subversão envelopado em branco
O desfile foi realizado no histórico quartel-general de estilo Beaux-Arts da marca, na Rue Saint-Martin, em Paris — o mesmíssimo salão que abrigou os desfiles mais icônicos do próprio Jean Paul Gaultier. No entanto, Lantink transformou o espaço clássico em uma espécie de laboratório futurista: as paredes foram completamente revestidas por um tecido acolchoado branco, simulando uma tela em branco macia (e levemente acolhedora) para que as roupas esculpidas saltassem aos olhos dos presentes.
Inspiração: de Marie Antoinette ao Futurismo Absurdo
A grande musa condutora da coleção foi ninguém menos que Marie Antoinette, a primeira e mais dramática influenciadora de estilo da história da França. Lantink fascinou-se pela intencional “disfuncionalidade” e pela opulência desconfortável dos trajes da corte do século XVIII, cruzando essa estética com as proporções corporais exageradas da cultura fitness atual e com as obras teatrais do pintor Richard Lindner.
Eu prefiro interrogar a silhueta em vez do corpo. Desafiar a própria roupa a crescer e ocupar espaço
Duran Lantink
Tecidos e Materiais: o casamento da alta-costura com a impressão 3D
Se a alta-costura costuma se apoiar unicamente em tecidos fluidos, Lantink trouxe materiais industriais e rígidos para o jogo, criando verdadeiros “exoesqueletos” de moda. A espinha dorsal da coleção utilizou engenharia digital de ponta com dois materiais termoplásticos altamente avançados, o TPU flexível e PA12. O resultado foi impresso em 3D para criar armaduras rígidas que sustentavam os tecidos.
Alta Costura Paris – Inverno 2026/27
Sobre essas estruturas tecnológicas, os ateliês de Gaultier aplicaram materiais clássicos em construções minuciosas:
- Veludos profundos e rendas fundidas diretamente nas placas de 3D.
- Tule pregueado em tons de Borgonha que explodiam como “órgãos internos” ou caudas de casulos.
- Milhares de escamas de cobra impressas em 3D e bordadas à mão, que produziam um som de “ASMR” conforme os modelos caminhavam.
- Acolchoados de espuma de poliéster de engenharia e penas exóticas aplicadas pela tradicional Maison Février, famosa por vestir as dançarinas do Moulin Rouge.
Paleta de cores: o rococó iluminado
A cartela cromática viajou no tempo de forma magistral. O tom Borgonha (vinho profundo) — uma cor de herança lendária na história da marca — ancorou o desfile. Ao redor dele, surgiram tons que evocavam os aposentos privados do Palácio de Versalhes: o azul real intenso, o verde-menta, o rosa-flamingo e o delicado rosa-bebê clássico.
Subversão dos Códigos da Maison
Lantink reinterpretou os maiores clichês de Jean Paul Gaultier com ironia cirúrgica. Os lendários sutiãs de cone (imortalizados por Madonna) migraram do peito para os quadris, transformando-se em espinhos pontiagudos revestidos de organza.
A alfaiataria desconstruída apresentou paletós pretos estruturados com cinturas tão absurdamente apertadas que criavam relevos pélvicos esculturais e protuberantes. Casacos jeans upcycled (resgatados de coleções passadas) ganharam silhueta de vespa em uma clara homenagem à estreia de alta-costura de Gaultier em 1997.
Top modelos e a primeira fila estrelada
Na passarela, o icônico modelo alemão Leon Dame foi o grande destaque, desfilando com uma armadura de torso masculino esculpida e distorcida lateralmente de forma robótica, fazendo referência direta ao frasco do perfume Le Male. O elenco desfilou com fitas históricas amarradas aos cabelos e joias monumentais inspiradas nos botões tradicionais da Zelândia (Zeeuwse Knopen), herança holandesa do estilista.
Na primeira fila o próprio Jean Paul Gaultier assistiu ao show sorridente e liderou os aplausos de pé gritando “Bravo! Très couture!” ao abraçar Lantink no encerramento. Ao lado do mestre, celebridades e titãs do estilo marcaram presença sob os flashes, completando a atmosfera de renascimento da casa francesa.
Com a Tech Couture, a Jean Paul Gaultier prova que a verdadeira alta-costura não serve para ser apenas comercial ou confortável: ela existe para testar os limites físicos da vestimenta, gerando o choque estético que move o mundo.
