
Fogo, aço e órbita na jornada de autodescoberta
O novo capítulo do Universo DC (DCU) comandado por James Gunn ganha as telas brasileiras com a estreia de Supergirl. Afastando-se completamente das abordagens televisivas e dos tropeços tradicionais do gênero, o longa-metragem abraça uma ópera espacial crua, poética e visualmente arrebatadora.
Quem é a Supergirl no universo Superman?
Para o grande público, Kara Zor-El é frequentemente lembrada apenas como “a prima do Superman”. No entanto, a mitologia da DC Comics estabelece uma diferença psicológica brutal entre os dois sobreviventes de Krypton.
Enquanto Kal-El (Clark Kent) foi enviado à Terra ainda bebê e criado por pais amorosos em uma fazenda pacata no Kansas, Kara era mais velha quando seu planeta natal explodiu. Ela testemunhou a morte de sua civilização, o colapso de tudo o que conhecia e passou anos à deriva em um fragmento hostil e decadente de Krypton antes de chegar ao nosso planeta. Essa bagagem faz da Supergirl uma personagem dramaticamente mais calejada, impulsiva e, muitas vezes, tomada por um profundo sentimento de luto e inadequação quando comparada ao otimismo inabalável de seu primo.
Uma odisseia de vingança intergaláctica
Baseado na aclamada história em quadrinhos Supergirl: Mulher do Amanhã (de Tom King e Bilquis Evely), o filme encontra Kara Zor-El (Milly Alcock) aos 23 anos, tentando afogar suas mágoas e traumas em bebidas exóticas em planetas sob a luz de sóis vermelhos, locais onde perde seus poderes divinos e consegue, finalmente, sentir-se “humana”.
Seu exílio voluntário é interrompido por Ruthye (Eve Ridley), uma jovem alienígena de 13 anos determinada a caçar Krem dos Montes Amarelos (Matthias Schoenaerts), um pirata espacial implacável que assassinou seu pai. Quando Krem envenena Krypto, o Supercão, e foge pelas estrelas, os caminhos da Garota de Aço e da jovem órfã se cruzam em uma violenta e poética jornada de vingança e redenção através dos confins do cosmos.
Nas telas brasileiras?
Detalhes da produção, direção e elenco
- A produção: Sob o guarda-chuva do recém-criado DC Studios, o longa conta com a produção executiva direta de James Gunn e Peter Safran, carregando o selo de renovação visual e narrativa prometido para a franquia. O orçamento estimado de US$ 170 milhões se reflete em uma direção de arte primorosa e efeitos práticos que dão textura a planetas alienígenas desconhecidos.
- A direção: O comando do filme ficou nas mãos do australiano Craig Gillespie (I, Tonya, Cruella). Conhecido por dirigir protagonistas femininas complexas, rebeldes e ligeiramente excêntricas, Gillespie traz seu estilo dinâmico e rítmico para o espaço, trabalhando em cima do excelente roteiro adaptado por Ana Nogueira.
- O elenco:
- Milly Alcock (A Casa do Dragão) assume o manto de Kara Zor-El com uma agressividade e vulnerabilidade cortantes, distanciando-se de qualquer estereótipo de “boa moça”.
- Eve Ridley brilha como a obstinada Ruthye, servindo como a bússola moral do filme.
- Matthias Schoenaerts entrega um vilão detestável e ameaçador na pele de Krem.
- O longa ainda conta com participações especiais de David Corenswet reprisando seu papel como Superman e o retorno surpreendente de Jason Momoa ao universo DC, desta vez encarnando o icônico caçador de recompensas intergaláctico Lobo.
O voo mais ousado da DC em anos
Supergirl acerta em cheio ao perceber que o cinema de super-heróis precisava urgentemente de uma mudança em suas engrenagens. Em vez de focar na batida jornada de proteção à Terra ou em invasões alienígenas em metrópoles cinzentas, Craig Gillespie entrega um legítimo road movie espacial que bebe diretamente das fontes do faroeste clássico.
A escolha de manter o foco na dinâmica entre Kara e Ruthye funciona como o coração emocional da narrativa. Milly Alcock está magnífica: sua Supergirl sangra, erra, sente raiva e exala uma arrogância quase juvenil que mascara uma dor imensurável. A fotografia de Rob Hardy, repleta de tons cósmicos vibrantes, dá ao filme uma identidade visual belíssima que faz justiça ao traço original dos quadrinhos.
O único ponto de tropeço reside em seu ritmo no segundo ato, onde o roteiro se perde levemente em pequenas missões secundárias que atrasam o clímax da perseguição a Krem. Além disso, a trilha sonora de Claudia Sarne, embora competente, por vezes tenta emular demais o estilo pop-rock irônico de Guardiões da Galáxia, destoando do tom de fábula melancólica que a história evoca.
No balanço geral, Supergirl é uma vitória estrondosa para a nova era da DC. É um filme que não tem medo de ser estranho, violento e, acima de tudo, profundamente humano. Kara Zor-El finalmente ganhou o épico cinematográfico que sua grandiosidade exigia.
