A fábula do colecionador de arte cego

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Táticas de negócio e de marketing seriam também expressões artísticas?

“Não existe um símbolo, ou uma imagem mais poderosa e adequada para representar o nosso momento do que a imagem do colecionador de arte cego. Ela resume tudo. Acho que se você vai escrever a história de nossa era deveria chamá-la de O Colecionador de Arte Cego e Outras Histórias.

Essas palavras são da impagável escritora e palestrante americana Fran Lebowitz e abrem o documentário Public Speaking que Martin Scorsese produziu sobre ela. Fran fala sobre o inacreditável incidente que aconteceu com o colecionador de arte Steve Wynn. Em 2006 Wynn, vítima de uma doença da retina ocular, reuniu amigos em sua casa para mostrar o quadro Le Rêve, de Picasso, que ele venderia naquela semana para Steven A. Cohen, um dos maiores colecionadores de arte do mundo. Picasso pintou a tela a óleo em 1932 retratando sua amante Marie Thérèse Walter. A obra fauvista tem como característica linhas dissociadas e cores contrastantes e é considerada uma das cinco melhores obras de Picasso. O negócio atingiria o preço recorde de 139 milhões de dólares.

Enquanto mostrava entusiasmado o quadro aos seus convidados, sem querer, com uma cotovelada, arruinou a obra e consequentemente a transação milionária. Bem humorado, anos depois Steve Wynn concedeu entrevista ao programa de TV americano 60 Minutes e falou sobre o acidente se colocando como o Inspetor Clouseau das artes. Em 2013 finalmente Steve Wynn vendeu Le Rêve e pasme, para o mesmo comprador e por um preço maior ainda, 150 milhões de dólares. Após uma briga com a Lloyds, seguradora do quadro e uma restauração milagrosa em que a tela foi reconstituída totalmente, Wynn acabou vendendo o quadro a Steven A. Cohen por 11 milhões de dólares a mais que o preço acertado anteriormente, mostrando que não existe limite para o negócio das artes plásticas.

Essa passagem ecoa como uma fábula curiosa do mundo da arte contemporânea. Porque essa obra vale tanto e porque uma pessoa que não pode enxergar tem uma milionária coleção de quadros? A arte virou um mero depósito de bens de consumo com valores regidos pelas leis de mercado e pelo poder do marketing? Estamos todos cegos como o milionário colecionador? Ou a arte ainda é feita por indivíduos que querem mostrar ao mundo uma ideia, uma discussão sobre identidade ou uma reflexão relevante para a humanidade?

O conceito de arte e de qual deveria ser o papel do artista no mundo atual é cada vez mais nebuloso e controverso. Durante o século XX o modernismo ofereceu um plenário incendiário de discussão de vanguardas, passando por posicionamentos políticos e a reflexão sobre os rumos da sociedade pós-industrial.

Esse diálogo entre movimentos estéticos evoluiu e a arte se democratizou de forma que hoje ela é cada vez menos voltada para um público de elite e, ao lado de um sistema mais erudito, onde se colocam os museus, a crítica, os historiadores e a arte conceitual, correm paralelamente a cultura de massa e a contracultura. O diálogo entre esses três riquíssimos polos é que deve pautar o presente milênio, mas no momento ele é bastante truncado, prejudicado por questões veladas de preconceito e inflexibilidade de todas as partes.

Duchamp e Warhol
Desde que Marcel Duchamp chacoalhou os alicerces da nata cultural vigente em 1917 propondo seus “ready mades”, objetos do cotidiano que se transformam em obra digna de ser apreciada numa galeria, ficou evidente que a arte deve ser pensada como algo perene, mas que ao mesmo tempo inova e nos coloca em contato com nosso tempo, criando reflexão e discussão.

Precursor da arte conceitual, Duchamp é uma das maiores referências do modernismo. Ele no início do século XX e Andy Warhol na segunda metade, empenharam-se em dessacralizar o mito do artista como gênio, mostrando que a arte deve e pode ser feita por todos e para todos.

Warhol é o artista do século XX que melhor dialogou com a cultura de massa e a contracultura e sempre transitou com tranquilidade em qualquer uma dessas esferas. Iniciando sua carreira como ilustrador, Warhol despontou para uma singular carreira altamente prolífica onde desempenhou papel chave em um dos grandes movimentos da arte moderna, a arte pop, ao lado de outros artistas egressos da publicidade e dos quadrinhos, como Roy Lichtenstein, Jasper Johns, Robert Rauschenberg e os precursores britânicos do Grupo Independente.

Warhol desenhou, pintou, fotografou e filmou, sempre de forma simples mas com grande significado e sempre criticando com muita ironia a sociedade de consumo, de uma forma que nem sempre deixou claro se ele foi contra ou a favor do capitalismo. Louco pelos holofotes, Warhol foi um mestre do marketing e soube usar a mídia como ninguém. Hoje os preceitos de sua obra estão tão em pauta quanto nos anos 60, 70 e 80. Na verdade muito do que ele propôs só está sendo compreendido e digerido agora.

Damien Hirst leva preceitos de Warhol às últimas consequências
Um dos grandes nomes da arte contemporânea, Damien Hirst, tem levado os preceitos de Warhol às últimas consequências e tem criado muita polêmica. Nos anos 90 Hirst ficou conhecido como um dos líderes do movimento YBA (Young British Artists), uma turma de formandos da escola de Belas Artes Goldsmiths, no Reino Unido. Com obras suas e de seus colegas ele organizou a mostra Freeze em 1988. Muitas dessas peças foram para o acervo do colecionador Charles Saatchi, publicitário britânico que montou uma das maiores coleções mundiais de arte contemporânea.

Desde então Hirst, que já havia trabalhado como embalsamador, partiu para uma carreira meteórica e muito bem remunerada. The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living, de 1991, considerada o maior símbolo da era dos YBAs, uma encomenda de Saatchi, foi vendida por um preço estimado entre 8 e 12 milhões de dólares a Steven A. Cohen, o mesmo que acabou arrematando o Picasso rasgado de Steve Wynn.

Mais que a obra em si, as características mercantilistas de todo o processo é que definem a importância desta obra. Desde a encomenda da peça por um colecionador conhecido como um dos maiores mecenas (e manipuladores) da arte contemporânea, até os preços exorbitantes que são pagos por compradores, ou melhor, especuladores que acreditam que essas peças podem valer ainda mais do que os colossos que eles pagam.

Damien Hirst já se colocou como “artista vivo mais rico do mundo”, posição hoje ocupada pelo alemão Gerhard Richter. Em 2007 ele lançou a “obra mais cara do mundo”, a caveira de platina For the Love of God, incrustada com 8.602 diamantes, um “memento mori” inspirado na cultura asteca. Foram gastos 23 milhões de dólares para confeccionar a peça que foi vendida por 82 milhões a um consórcio anônimo do qual participava o próprio Hirst. Criticado pela imprensa que dizia que ele tentava se desfazer da obra por um preço menor, já que não havia sido vendida na exposição da galeria White Cube, na qual estreou em 2007, ele veio a público se retratar, explicando que não só ele não precisou se desfazer da obra supostamente encalhada, como havia recebido os 82 milhões de dólares (50 milhões de libras) em dinheiro.

Em setembro de 2008 Hirst promoveu na Sotheby’s de Londres o leilão Beautiful Inside My Head Forever. Pela primeira vez na história um artista leiloou diretamente ao público suas obras, sem a presença de seus galeristas, a Gagosian de N.York e a White Cube de Londres. O leilão superou todas as expectativas e arrecadou cerca de 198 milhões de dólares no mesmo mês da falência do banco Lehman Brothers, desastre financeiro que desencadeou o colapso dos mercados de subprime nos Estados Unidos e consequentemente a crise financeira de 2008.

Não há dúvidas de que Hirst leva ao pé da letra as ideias de Andy Warhol como a máxima “ser bom nos negócios é a mais fascinante forma de arte. Fazer dinheiro é arte, trabalhar é arte e bons negócios são a melhor forma de arte”. No entanto, Warhol não ficou na história somente por colocar a questão financeira como fundamental no sistema de artes plásticas do mundo ocidental. Ele deixou uma vasta obra onde experimentou com várias mídias e seu trabalho cinematográfico, o mais marginal de sua obra, ficou como um importante pilar da cultura gay mundial. Já as divagações do bilionário Damien Hirst sobre a morte não são tão inovadoras ou originais e, na verdade, pesam sobre elas diversas acusações de plágio que geraram processos contra o artista detentor do status de uma estrela pop.

Um dos artistas vivos mais famosos do mundo, Damien Hirst é também motivo de chacota. Na feira Arco de Madri, em 2009 o artista espanhol Eugenio Merino exibiu a obra For the Love of Gold, uma crítica a For the Love of God, no mesmo formato de vitrine dos animais embalsamados. A escultura de Merino mostra um boneco de cera feito à imagem e semelhança de Hirst se suicidando dentro de um cubo de vidro.

Se Hirst executasse realmente essa performance, automaticamente multiplicando o valor de suas obras, tornaria-se o mártir do ato supremo de crítica ao sistema mercantilista de artes plásticas do mundo ocidental. O artista, no entanto, está mais preocupado com o que falam dele agora, e não o que falarão depois de sua morte.

A batalha entre a arte erudita e o “lowbrow”
Em 2008 um grafiteiro adolescente britânico, Cartrain, vendeu na internet colagens com imagens da caveira de diamantes de For the Love of God. Hirst acionou a instituição de direitos autorais britânica, DACS (Design and Artists Copyright Society), e conseguiu confiscar as colagens. Contrariado, o garoto que tinha na época 16 anos acatou a decisão mas não se aquietou. Em julho de 2009 foi à Tate Modern e roubou uma caixa de lápis Faber Castell, parte da instalação Pharmacy de Hirst. No mesmo dia criou um poster que foi afixado em várias ruas de Londres no estilo “procurado” com a imagem da caixa de lápis e a seguinte legenda: “Para que os lápis de Damien Hirst sejam devolvidos em segurança, eu peço que sejam devolvidos meus trabalhos confiscados pela DACS e por Damien Hirst em novembro. Hirst tem até o final do mês para resolver isso ou no dia 31 de julho os lápis serão apontados. Ele está avisado”

Fantástico! O diálogo e a discussão ética que antes ficavam restritos a um circuito erudito agora acontecem na mídia à mercê da opinião pública que acaba refletindo sobre questões que permeiam as maiores divagações das artes na atualidade: o preço de uma obra de arte, os direitos autorais e a existência de esferas distintas, a erudita (“high art”) e a periférica (“lowbrow”).

Semanas após o roubo dos lápis, agentes do Departamento de Arte e Antiguidades da Scotland Yard apareceram com uma ordem de prisão para Cartrain. A queixa? Danos a uma obra pública no valor de 10 milhões de libras e o roubo de uma caixa de lápis que supostamente vale 500 mil libras. Cartrain hoje está livre mediante o pagamento de uma fiança e os lápis foram recolocados na obra Pharmacy.

Cartrain não está só em seu intento de desmascarar os novos milionários das artes plásticas. Um grupo chamado Red Rag To A Bull (algo como pano vermelho para um touro), que faz campanha contra o alto controle de direitos autorais no Reino Unido, criou suas próprias obras de arte baseadas em For the Love of God e as vendeu na internet para angariar fundos e ajudar o jovem grafiteiro a se defender contra a ação judicial movida por Damien Hirst. Entre os artistas do grupo está James Cauty, da banda pop KLF (Kopyright Liberation Front). Cauty ficou conhecido por fazer música com trechos sampleados não autorizados de músicas do ABBA e por queimar numa fogueira 1 milhão de libras de lucros de sua banda, uma manifestação contra a indústria da música.

Enquanto Damien Hirst ridiculariza todo o mercado de arte com suas obras medianas comercializadas a preços absurdos, Cartrain ridiculariza Damien Hirst copiando e modificando seu trabalho e vendendo-o a preços irrisórios. É realmente um questionamento sobre o que é a arte erudita hoje, pautada principalmente pela arte conceitual que vem deixando de ser algo incompreensível ao público de maneira geral e que consiste cada vez mais em ações pontuais de marketing de guerrilha.

Markerting de guerrilha nas artes
Dois grandes mestres do marketing de guerrilha são os artistas Santiago Sierra e Wim Delvoye. Ambos fazem instalações e obras radicais, algumas envolvendo fezes.

O belga Wim Delvoye criou a Cloaca, uma engenhoca que simula o aparelho digestivo humano. A traquitana criada pelo artista, resultado de oito anos de pesquisas com profisionais de ramos diversos, como encanadores e gastroenterologistas, pode ser “alimentada” com qualquer tipo de substância. Alguns exemplares dos produtos da máquina, as fezes, foram leiloados na Sotheby’s. Delvoye é também o controverso artista que tatua porcos (previamente sedados) com monogramas da grife Louis Vuitton, no projeto Art Farm. Ele cria os porcos como animais de estimação e depois os mata para vender o couro tatuado dos infelizes seres. Perseguido pela associação de proteção dos animais na Europa, Delvoye, cuja assinatura é uma paródia da marca registrada de Walt Disney, levou sua Art Farm para a China.

Outra ação de marketing de Delvoye é uma pintura-tatuagem que ele fez nas costas do suiço Tim Steiner, de 32 anos. Um negócio inédito entre o artista, uma galeria de Zurique, a De Pury & Luxemburg e Steiner, prevê que o rapaz mostre suas costas em galerias ou museus três vezes por ano. Quando Steiner morrer sua pele tatuada será preservada e irá para a coleção de Rik Reinking. Marketing e morbidez pelo jeito caminham juntos na obra de Delvoye.

O espanhol Santiago Sierra é igualmente radical. Ele usa vídeo e foto para documentar performances que evidenciam ironias da economia capitalista e da globalização, mostrando situações de exploração e marginalização. Na 50a edição da Bienal de Veneza o artista representou a Espanha com uma instalação onde só podiam entrar aqueles que tinham passaporte espanhol, evidenciando o sistema antiquado de nacionalidade e as exclusões sociais e legais presentes na nossa sociedade. Em uma exposição de 2008 na galeria Lisson de Londres, Sierra apresentou uma obra com blocos de excremento humano. O material dos blocos foi colhido em Nova Delhi, na Índia, por escavadores designados para a tarefa com a finalidade de lhes permitir se redimir de culpas de vidas passadas. A obra foi patrocinada pelo movimento Sulabh International of India que trabalha para melhorar as condições de vida desses trabalhadores que recolhem o excremento e são assinalados para fazer esse trabalho desde o nascimento.

O controverso artista plástico recusou o National Arts Award 2010, maior prêmio da Espanha. Sierra postou em seu próprio site na internet uma carta ao ministro da cultura espanhol, Ángeles González- Sinde, agradecendo aos outros artistas e aos membros do júri por escolher seu nome para o prestigiado prêmio que lhe oferecia uma quantia de 41 mil dólares. Para Sierra o prêmio “instrumentaliza o prestígio do ganhador em benefício do estado”. O artista acredita que o estado não está trabalhando para o bem da coletividade e a Espanha está “participando ao lado de impérios criminosos em guerras dementes” além de “doar com facilidade o dinheiro do povo para os bancos”.

Sierra escreveu ainda em sua página na internet as palavras “saúde e liberdade” e “o estado não somos todos nós, o estado são vocês e seus amigos. Não contem comigo entre eles já que sou um artista sério”. Com essa atitude Santiago Sierra conseguiu mais uma vez ser notado na mídia, discutindo o papel da arte e sua relação com as instituições e a relação entre arte, conteúdo e poder criada pelos prêmios. É outra ação de marketing do artista que, se tivesse simplesmente aceitado o prêmio, não teria angariado os holofotes para si.

De uma forma ou de outra, através de políticas de preço nas artes ou táticas de marketing, os artistas de hoje estão discutindo e ao mesmo tempo se adequando ao mundo que os cerca. A fábula do colecionador de arte cego

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