V de Vingança – Adaptação das HQs de Alan Moore é memorável e ousada

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V de Vendetta é uma das melhores adaptações de quadrinhos para as telas – Natalie Portman estrela ao lado de Stephen Rea, Hugo Weaving e John Hurt

V de Vingança (V for Vendetta), adaptação das HQs de Alan Moore: Valeu a pena esperar pelo filme, que curiosamente ficou com uma mensagem mais atual do que se esperava quando foi concebido, ao retratar um estado fascista que extermina as liberdades e direitos dos indivíduos em nome da segurança e bem estar.

Um anarquista intitulado V usa e abusa de táticas terroristas e sombrias para combater um governo totalitário e repressor. Uma espécie de cavaleiro solitário que tem seu ápice no dia 05 de novembro, uma data marcante na história da Inglaterra, quando ele planeja seu grande manifesto, e salva a jovem Evey (Natalie Portman) de ser vítima de abuso por parte da polícia secreta. A partir deste momento o destino dos dois se entrelaça no combate ao ditador Adam Sutler (John Hurt em excelente forma), que comanda Londres, em 2020, com pulso forte. Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos são vítimas de seus próprios erros e vivem no caos das doenças, pobreza e guerra civil. Evey, que trabalha numa rede de TV, onde o governo planta notícias para manipular a população, logo vai ter a oportunidade de revelar sua face e angústia (que não revelo aqui para não estragar surpresas).

Sólido, visualmente desafiador, ousado (o conceito de um terrorista como herói já diz bastante sobre isso), memorável e centrado como uma alegoria política, sem ser maniqueísta, V de Vingança tem tudo para se tornar um clássico. Surpreendente ainda é ser dirigido por James McTeigue, que estréia na direção (antes foi assistente dos irmãos Wachowski, com quem deve ter aprendido muito). O elenco pode não estar memorável, mas cumpre com perfeição seus papéis.

V simboliza a voz dos oprimidos e é a encarnação da esperança. É o novo cavaleiro das trevas. Capaz de enlouquecer a polícia e seus oponentes atrás de uma máscara de Guy Fawkes, que em 05 de novembro de 1605 tentou explodir o parlamento. Suas aparições estimulam a população a não temer o governo. Afinal, ele é que tem que temer a população. A trama, rica em idéias, também dá espaço para elementos de Matrix e clássicos, como 1984, uma das grandes obras de George Orwell, que criou os elementos da vigilância do Big Brother.

A transposição dos quadrinhos para a telona é perfeita, captura a essência da trama. Não é como Sin City, um trabalho quadro a quadro, mas as liberdades tomadas não comprometem e só aprimoram a obra de Alan Moore, que por um comportamento de prima dona pediu que seu nome não fosse associado ao projeto. Ele já havia agido da mesma forma com Do Inferno e com A Liga dos Cavaleiros Extraordinários. Não tem Evey se prostituindo na cena inicial, nem o policial tem sua revelação tomando LSD, mas só para citar um exemplo, o final cinematográfico gera muito mais impacto e empatia, sem se desvirtuar do original.

V de Vingança é uma obra que leva a reflexão e pode ser interpretada de variadas formas. Seria um manifesto ou pura fantasia? V é um terrorista ou libertador? São questões que muitas vezes, depende da perspectiva pessoal. As grandes obras têm esse dom. O filme é um espetáculo cinematográfico que valoriza e prova que o cinema ainda tem muito a contribuir como arte.

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