“Body art” de efeitos devastadores

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Sobre Paula Oliveira e a imagem da Suiça e do Brasil

 

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Sobre Paula Oliveira e a imagem da Suiça e do Brasil

Damien Hirst deve estar se mordendo por não ter tido a mesma idéia de Paula, nossa conterrânea que vive na Suiça e que com sua “body art” acabou desencadeando uma polêmica política e social que poucos artistas conseguem nesse mundo de marketing e eventos midiáticos.

Ironias à parte, como todo mundo que tem acompanhado o caso da brasileira Paula de Oliveira, que diz ter sido atacada por skinheads e apresenta cortes horríveis por todo o corpo, eu fiquei muito abalada com o caso. Primeiro o horror que causou a imagem dos ferimentos. Em seguida o medo que dá a idéia de ataques racistas ou neo-nazistas. Para completar nos deparamos com a surpresa ante o aparente descaso das autoridades suiças com a questão, até serem acusados no Brasil todo de racismo e xenofobia.

Com certeza esse caso entra para a história das relações internacionais dos dois países e muito ainda vai acontecer no desenrolar da investigação e, agora, também processo penal contra a suposta vítima.

Fiquei muito contrariada com as últimas evidências de que Paula não estava grávida na ocasião do alegado ataque e que, inclusive, pode nunca ter estado grávida. Tive raiva de Paula logo que soube dessa informação e sei que é assim que muita gente está se sentindo, tanto aqui quanto na Suiça. Mas o que o caso trouxe à tona são as diferenças enormes entre os dois países, seus povos e sua história. As revelações sobre o caso têm causado discussões e polêmicas calorosas.

Agora que a coisa se esclarece um pouco, que alguma explicação apareceu, o que fica para nós é a vergonha. Nós brasileiros estamos constrangidos  com o que está acontecendo. Li frases de brasileiros como “tinha que ser um brasileiro para fazer besteira no exterior e manchar ainda mais a imagem do Brasil”.

Eu não acredito mais no que Paula diz, mas também não há provas  de que ela não foi atacada. As investigações ainda não mostraram nenhuma prova contra nem a favor de Paula. Pesa em sua credibilidade o fato de que ela não mostra nenhum tipo de exame de gravidez, seja de sangue ou ultrassom. A situação de Paula ficou ainda mais grave depois de um comentário publicado na imprensa de uma colega de trabalho anônima que diz que Paula é mentirosa.  No meu entender comentário de colega de trabalho anônimo é bastante discutível e não é para ser levado a sério. Não será levado em conta num julgamento a não ser que ela se identifique e inclusive prove o que está falando.

Por conta desse estranho incidente, que no fim não é algo atribuível a países e sim a um indivíduo (Paula), aparentemente com problemas psíquicos, não deveríamos apelar para o complexo de inferioridade e sofrermos (ou obtermos prazer sórdido) de forma masoquista. Parece que só faltava um caso desses para termos mais um chance de nos depreciarmos.

Na Suiça as autoridades precisam desesperadamente provar que Paula está mentindo, para poder limpar um pouco a imagem de país racista. A imagem de xenofobia não é infundada principalmente quando vemos os cartazes do partido SVP (foto). Quem viu o corpo da moça com os ferimentos e o nome do partido SVP da Suiça, imediatamente ficou chocado e revoltado e isso acontece porque sabemos de tudo o que houve por lá no século XX e o que está acontecendo agora com a questão da imigração e da unificação da Europa. Há pouco tempo aconteceu o caso Jean Charles na Europa e foi num país que nem tem como marca registrada o nazismo. Até hoje ninguém foi condenado pelo assassinato de nosso conterrâneo, um trabalhador honesto que morava na Inglaterra.

A gente olhou para a foto dos cortes de Paula e acreditou que ela era vítima do neo-nazismo, herdeiro do nazismo que a gente nunca esquece pois a cada ano são produzidos centenas de livros, filmes e reportagens sobre o assunto. Quem tem a imagem ruim são eles, os europeus, por isso acreditamos na história de Paula. Problema deles.

Na primeira evidência de culpa de Paula nós tivemos de ler coisas do tipo “no Brasil é comum as mulheres darem o golpe da barriga, para prender homem”. Os piores estereótipos foram exaltados em matérias na imprensa de ambos os países. Acho que a má impressão do tal “golpe da barriga”, dificílimo de provar, é muito menos comprometedora que a sina de monstros e assassinos em massa do nazismo, que pesa bastante na imagem da Europa como um todo e mais ainda em países como a Suiça que tem hoje um governo de coalisão da qual participa um partido de extrema direita, exatamente o SVP, estampado no corpo de Paula.

Concordo que ela deva responder processo na Suiça e, se for provado que ela mentiu, deveria responder a outro aqui no Brasil, por ludibriar e tomar o tempo de milhares de pessoas, incluindo o mais alto escalão do Ministério das Relações Exteriores, compromentendo a amizade diplomática que existe entre Brasil e Suiça.

Porém, mesmo que Paula seja condenada, isso não redime a Suiça e a Europa de um passado, e ainda de um presente, de racismo e xenofobia.

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