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Caso James Charles x Tati envolve homofobia

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Youtuber vingativa usa discurso homofóbico para destruir o primeiro homem que estrelou uma campanha de maquiagem

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Cada dia mais a internet traz à tona o quão imperfeito e atrasado o ser humano pode ser. Há vinte anos, no início da popularização da internet, havia o sonho e a utopia da rede como o pilar mais acessível da democracia: a internet como o lugar onde todos tem voz.

Hoje a internet é totalmente monopolizada por grandes conglomerados que comandam as plataformas e sofre para continuar relevante no meio de um ruído generalizado de um punhado de gente rasa e mesquinha. Esse ruído tem sido utilizado por grupos, políticos e organizações diversas para manipular o público.

Nesse ambiente tóxico as tretas acontecem diariamente, mas poucas vezes esses imbróglios migram da internet para a mídia tradicional, conseguindo uma visibilidade mais abrangente. 

A maior treta entre YouTubers até hoje

Desde a semana passada uma dessas confusões está conseguindo mobilizar internautas no mundo todo e vem recebendo atenção de boa parte da imprensa. A confusão é entre o maquiador e influenciador James Charles e a YouTuber Tati Westbrook, maquiadora de dotes discutíveis que faz resenhas de novos produtos cosméticos e tem uma empresa de vitaminas as quais, supostamente, ajudam na aparência. No entanto as vendas das vitaminas de Tati estão problemáticas. Há um ingrediente na fórmula, o Saw Palmetto, que interfere no controle de natalidade. Essa substância, que também é usada no tratamento do câncer de próstata, é extraído de uma fruta da palmeira. A interferência no controle de natalidade tem sido noticiada em sites de medicina, como o Web MD.

A confusão teve início em meados de abril quando a YouTuber Tati, de 37 anos, postou um vídeo no stories do Instagram chorando e se dizendo injustiçada por seus amigos, sem mencionar nomes. O motivo se soube logo depois, por conta de um post nas redes sociais de seu amigo e grande influenciador da atualidade, James Charles. Durante o fim de semana do festival de música Coachella, James fez um acordo com uma empresa concorrente à de Westbrook, a Sugar Bear Hair, que produz vitaminas  semelhantes e inclusive está no mercado há muito mais tempo que a Halo Beauty, de Tati. 

James pediu publicamente desculpas a Tati por ter feito o acordo com a empresa concorrente. Na verdade ele não deveria nem ter pedido desculpas, já que não trabalha para a empresa da amiga, ou seja, não tem nenhum tipo de contrato com ela. Porém, na tentativa de manter a amizade viva, ele fez o post se desculpando por ter promovido um produto concorrente ao dela. 

Não só Tati Westbrook ignorou o post do amigo, como dias depois, na sexta, 10 de maio, ela postou um vídeo no YouTube que hoje, 16 de maio, já passa de 45 milhões de visualizações. No vídeo ela acusa James Charles de traição e se põe a fazer julgamentos sobre a vida afetiva do rapaz que tem apenas 19 anos e sempre fala em suas redes sociais que nunca teve um namorado firme. Segundo ela, Charles, que é gay assumido, é um “predador sexual” que tenta “convencer” meninos hetero de que eles são gays. 

O vídeo se tornou viral e desencadeou uma revolta contra James Charles que vem se traduzindo em milhares de pessoas saindo de seu canal no YouTube. Em 5 de maio James Charles tinha mais de 16 milhões de inscritos e agora ele tem cerca de 13 milhões. Foi uma perda de cerca de 3 milhões num período inferior a uma semana. 

James Charles postou nova resposta, um vídeo se desculpando, e nem assim a vlogueira se dignou a conversar com o amigo pessoalmente, em particular. Tati, no entanto, está ganhando e muito com a treta. Seu canal pulou de 6 para 10 milhões de inscritos em menos de uma semana.

Os dois vídeos estão rendendo fortunas aos dois YouTubers e passam das dezenas de milhões de visualizações, o que significa que eles vão receber quantias enormes de suas cotas de publicidade na plataforma. 

Dezenas de canais no YouTube estão fazendo lives com a contagem dos inscritos dos dois canais, de Tati e de James. É uma sede de sangue do público que se traduz também em comentários homofóbicos por toda a internet. 

Tati promove em seu vídeo Bye Sister um verdadeiro linchamento virtual de James Charles. Só se vê nos comentários humilhação atrás de humilhação e sem nenhuma prova. Um verdadeiro caso de bullying com viés homofóbico. 

Não só a YouTuber fala em traição, o que não corresponde à verdade, como ela destaca detalhes sobre uma suposta investida do amigo sobre um garçom. O problema é que foi o tal garçom quem procurou James através dos DM do Instagram e quis marcar encontro, o que acabou acontecendo. 

Com a confusão criada pela maquiadora, o garçom fez um vídeo onde afirma ter procurado James e que ele ‘beija mal”. É realmente um festival de gente periférica querendo lucrar com a treta histórica.

O vídeo de Tati é horrível, chega a ser doloroso de ver, por conta dos detalhes humilhantes e o teor homofóbico de seu discurso. Ela usa o termo “predador sexual” várias vezes. Esse termo foi usado em terapias de conversão gay nos anos 50. 

YouTuber acima de qualquer suspeita… Acostumada a tretas na plataforma

A YouTuber Tati se coloca com um discurso de auto proclamada honestidade, virtude essa que nunca foi comprovada, mas que ela alardeia em todos os seus vídeos. Ela se posiciona absolutamente contra a prática de marketing de afiliação. Essa é uma das formas que YouTubers dispõem para ganhar dinheiro na internet. Basicamente é um acordo entre marcas de produtos e criadores onde os produtos mostrados nos vídeos (ou posts) podem ser comprados com desconto através de um código. 

Tati condena a prática e diz que o seu canal é idôneo porque ela não faz parcerias com marcas e nem utiliza marketing de afiliados. No entanto ela tem seu próprio produto e faz propaganda intermitente, ou seja, em todas as descrições de seus vídeos. E, como se pode ver pela confusão que ela criou, ela está longe de ser uma pessoa idônea. 

Como maquiadora Tati nunca demonstrou grandes méritos. Faz maquiagens muito básicas e corriqueiras, nunca faz maquiagens artísticas como uma das melhores YouTubers de maquiagem, do canal Nikki Tutorials. Muito menos alguma vez demonstrou habilidade para maquiagem de efeitos especiais, como James Charles faz em quase todos seus vídeos.

No canal desse “bastião de integridade”, segundo ela própria, ela apresenta resenhas de novos lançamentos de produtos. Nesse campo a maquiadora já fez várias inimizades e já trouxe a público suas confusões com outros criadores de vídeos da plataforma. 

Em relação às pílulas que ela vende e a controvérsia sobre o ingrediente Saw Palmetto e o controle de natalidade, Tati Westbrook não fez nada para instruir o público e desativou comentários no vídeo onde ela fala sobre seu produto. Não deu explicação nenhuma sobre a interferência na eficácia de pílulas anticoncepcionais.

Como se pode ver, muito mais que James Charles, Tati Westbrook é uma veterana de confusões e tretas na internet. Porém, como ela é praticamente conhecida somente na internet, a maioria das pessoas acabam levando gato por lebre e caem no conto do “bastião da honestidade”.

O primeiro homem a estrelar uma campanha de maquiagem – Quem é James Charles?

James Charles não é uma personalidade restrita à internet. James foi o primeiro homem a ser escolhido para estrelar uma campanha de publicidade de marca de maquiagem. Em 2016 ele foi a estrela da campanha da Cover Girl. Na época ele tinha apenas 17 anos. 

James Charles tem um estilo próprio muito interessante e ousado, além de bonito. No festival Coachella, em 2018 e 2019, o influenciador mostrou looks bem arrojados, coloridos e sensuais o que, evidentemente, sempre provoca muito engajamento em suas redes sociais. Este ano James foi o único influenciador da comunidade de beleza a ser convidado para o Met Gala. 

Toda esta confusão é muito importante por vários motivos. Esta é a maior debandada de um canal do YouTube em toda a história da plataforma, desde 2006. Outros casos mais escabrosos, onde a conduta duvidosa de um YouTuber é facilmente comprovável, e não apenas fruto de uma fofoca sem fundamento, não tiveram o mesmo desfecho.

Youtubers infames não passaram pelo mesmo drama que Charles

Logan Paul é o mais famoso dos YouTubers infames. Em 31 de dezembro de 2017 Logan postou um vídeo gravado no Japão, na Floresta dos Suicidas. No vídeo ele e sua equipe estão prestes a montar a barraca para acampar na floresta quando encontram o corpo de um rapaz que havia acabado de se suicidar. A cena é absolutamente grotesca. Ele e os amigos dão risada. No começo do vídeo ele já avisa que aquele seria um “marco na história do YouTube”. 

A repercussão foi imensa e Logan virou pessoa non grata na plataforma e fora dela. A grande imprensa, celebridades e o público em geral demonstraram revolta. O YouTube tirou do canal de Logan algumas regalias que os grandes canais tem em relação a anunciantes e se comprometeu a diminuir a participação dele em produções do YouTube Originals. No entanto, ao invés de Logan Paul perder fãs, ele ganhou um milhão de inscritos e hoje continua sua carreira de YouTuber. Hoje Logan Paul tem mais de 19 milhões de inscritos em seu canal de vlogs e mais de 1 milhão e 400 mil inscritos em seu novo canal, onde ele posta podcasts. 

Tana Mongeau é outra grande YouTuber americana. Em 2018 ela promoveu uma convenção gratuita chamada TanaCon que seria uma resposta ao maior evento de criadores de vídeo para a internet, a Vidcon. TanaCon, que aconteceu em junho de 2018, foi um desastre comparável ao Fyre Festival. O evento acabou sendo fechado pela polícia por excesso de pessoas. Tana foi execrada pelo público na internet e fora mas, mesmo assim, não houve uma debandada de inscritos igual à de James Charles. 

A inveja no centro da difamação

Tati Westbrook não é uma grande maquiadora e seus vídeos são bastante insossos. Ela está no YouTube há cerca de 10 anos o que faz dela uma OG (Original Gangster). Raramente ela muda de cenário. No último ano praticamente ela gravou todos os vídeos no mesmo local e na mesma posição com apenas algumas cenas gravadas em celular quando ela quer mostrar a evolução da performance de uma base. Ela raramente faz um tutorial de maquiagem, fala mesmo somente sobre os produtos que está resenhando e dá sua opinião. 

James Charles está no topo de sua carreira como criador de vídeos e influenciador de redes sociais. Até o disparate postado por sua ex-amiga, ele tinha 16 milhões de inscritos no canal e mais de 14 milhões de seguidores no Instagram. Seu trabalho como maquiador é muito reconhecido e ele tem feito maquiagem para artistas e videoclipes, como o novo de Iggy Azalea.  

Ele produz imagens e vídeos tutoriais belíssimos onde mostra habilidade como maquiador e artista de efeitos especiais. James é também modelo e sua campanha para a Cover Girl em 2016 é um fato histórico. Foi a primeira vez que um homem estrelou uma campanha de maquiagem. A empreitada da marca é um marco na sociedade e coloca o momento como chave na questão de empoderamento e direitos da comunidade LGBTQ. Desde então ficaram cada vez mais em evidência os homens que se maquiam e não são drag queens. Toda a indústria de maquiagem e cosméticos passou a abrigar um mercado bem maior e diversificado. 

Por sua beleza, por seu conteúdo bem produzido compartilhado no Instagram, no YouTube e no Snapchat, James Charles se tornou um dos influenciadores mais procurados por marcas. No momento ele tem sua própria marca de camisetas e moletons, a Sister Apparel a qual era confeccionada por uma empresa do influenciador Jeffree Star. Com a controvérsia desta semana a parceria foi finalizada. 

James mal compreendido

Alguns posts nas mídias sociais não pegaram bem para sua imagem, mas estão longe de serem prova de coisas ruins como racismo ou arrogância, como as pessoas dizem. Em 2017, quando ainda era o embaixador da Cover Girl, ele tuitou uma piada sobre a doença Ebola. 

O tweet na verdade é uma frase que ele disse e contém ainda uma piada que um amigo fez com ele, ou seja, mostra que ele riu de si próprio e da própria ignorância: “Não acredito que estamos indo para a África hoje. Meu Deus, e se pegarmos Ebola? James, estamos bem, poderíamos ter pegado no Chipotle na semana passada”. Esse incidente mostra bem que as pessoas acreditam no que querem acreditar. Não, James Charles não é racista porque fez essa piada. 

O baile Met Gala é o maior evento da moda na atualidade. Coordenado pela editora da Vogue americana, Anna Wintour, o evento é beneficente e os fundos arrecadados na venda de ingressos e mesas são voltados para a manutenção da ala de moda do Museu Metropolitan, The Costume Institute. James Charles foi o único influenciador de moda a ser convidado para o evento. Ele foi vestido pelo designer Alexander Wang e esteve na festa ao lado das Youtubers Liza Koshy, Lilly Singh e a atriz Madeleine Pletch, de Riverdale. Esses convidados ficaram na mesa que foi organizada e comprada pelo YouTube. 

No dia do evento James Charles se expressou nas redes sociais e novamente foi mal interpretado. Ele escreveu o seguinte no seu perfil de Instagram mas já apagou, depois de grande controvérsia:

“My First Met Gala. Thank you so much YouTube for inviting me and Alexander Wang for dressing me! Being invited to such an important event like the ball is such an honor and a step forward in the right direction for influencer representation in the media and I am so excited to be a catalyst.”

“Meu primeiro Met Gala. Muito obrigada YouTube por me convidar e Alexander Wang por me vestir! Ser convidado para um evento tão importante como o baile é uma grande honra e um passo adiante na direção certa da representação dos influenciadores na mídia. Estou muito animado por ser um catalizador.”

Os comentários, fruto de má  intencionada interpretação, diziam que James Charles é arrogante por colocar a categoria de influenciadores como marginalizada pela mídia…

Não foi isso que ele disse. Especificamente no Met Gala é evidente que celebridades de internet não são convidadas. Nunca foram vistas blogueiras de moda ou de beleza no evento, esta foi sim a primeira vez. As pessoas já colocaram como se fosse algo mais abrangente, que ele estivesse falando sobre ativismo político em relação a influenciadores. 

Público raivoso e despeitado alimentado pelos “drama channels”

O que mais surpreende nessa questão toda e o que levou a essa repercussão estratosférica é o grau de ódio desproporcional que o público coloca em comentários, posts e memes sobre o assunto. 

Tati Westbrook, que lançou uma narrativa absolutamente infundada e homofóbica sobre James Charles, é tida como acima do bem e do mal. Já James Charles não pode dizer nada que é mal interpretado. 

O ruído é replicado pelos desagradáveis, feios e mal produzidos “drama channels”, os canais de drama. São a pior coisa do YouTube.  São vídeos de fofoca produzidos da pior maneira possível, com fotos e imagens sem definição captadas na internet. Esses canais estão lucrando horrores com a treta e estão mantendo o assunto em pauta, procurando as “vítimas” de James Charles e até agora ninguém encontrou uma pessoa que tenha sofrido qualquer tipo de assédio sexual impróprio e sem consentimento.

Da mesma forma como a mídia de fofoca nos anos 90 e 00 conseguiu mergulhar toda a imprensa num poço de podridão, os “drama channels” conseguem monopolizar a conversa com o que há de pior. Esses canais desvalorizam a plataforma YouTube.

Bom lembrar que pode tardar, mas esses veículos de pura difamação não se sustentam por muito tempo. O site Gawker foi o maior veículo de fofocas da internet. O documentário Nobody Speak, Trials of the Free Press, em cartaz na Netflix, mostra a derrocada do site que acabou perseguido por um milionário que era citado no site à exaustão. Esse tipo de veículo leva toda a imprensa e agora toda a internet para o lodo, oferecendo munição para quem quer acabar com a liberdade de expressão. 

Tem muita gente defendendo James Charles

Um fato surpreendente no caso James Charles x Tati Westbrook é que grandes influenciadores tem defendido James Charles. O primeiro a defender foi o maior YouTuber do mundo, PewDiePie. O maior canal de drama também defendeu James Charles, o Drama Alert. Tanto PewDiePie quanto o Drama Alert disseram que não há evidência nenhuma nas acusações de Tati Westbrook, dizendo que James Charles é um “predador sexual”.

Os amigos do mundo da beleza, Gabriel Zamora e Nikita Dragon também saíram em defesa do amigo, principalmente Gabriel que fez posts nas redes sociais endereçados diretamente a Tati Westbrook, falando sobre a gravidade das acusações que ela está fazendo e que ela pode ser presa por isso. 

“Bastião da integridade” volta a tentar capitalizar no escândalo

O “bastião de integridade” Tati Westbrook voltou a postar vídeos esta semana. É difícil de assistir. O mais interessante é a imagem de altivez que ela passa e é exatamente essa imagem que faz o público se confundir. A pessoa é infantil ao ponto de querer resolver com milhões de internautas um problema que deveria ter sido resolvido em particular com seu “amigo” James Charles, do qual ela cobra tanto seu quinhão na formação e sucesso. E continua tentando manipular o público agora querendo se fazer de vítima da própria emoção. Uma pessoa que posta vídeos há dez anos na mesma plataforma diz que não tinha ideia do dano que estaria causando a James Charles…

É simplesmente lamentável… Mas a realidade é sempre a mesma: as pessoas são o que elas fazem e não o que elas dizem que são. Tati Westbrook disse um monte de mentiras sobre James Charles para milhares de pessoas na semana em que ele estava no ponto mais alto de sua carreira e fez com que ele seja humilhado. É desumano o que ela fez e demonstra como ela é ciumenta, invejosa e não usa de racionalidade nenhuma. 

O assunto deveria ser resolvido num processo de difamação na justiça.

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