Sinais de vida no planeta videoclipe

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Sinais de vida no planeta videoclipe

Seria um plágio de Zbig Rybzynski o novo clipe da banda australiana Midnight Juggernauts?

Sem dúvida o auge do videoclipe e da videoarte aconteceu nos anos 80 e se extendeu por parte dos anos 90. Foi quando surgiu a MTV, a indústria fonográfica tinha muito dinheiro e ainda não havia padrões estéticos ou financeiros estabelecidos para produção de videoclipes. Nos anos 80 as bandas pop contratavam artistas de várias áreas diferentes, seja da fotografia, das artes plásticas, da animação, do cinema ou da produção de comerciais para produzir peças que se tornaram antológicas como o vídeo Take On Me do A Ha ou Sledgehammer de Peter Gabriel, entre tantos outros.

Nos anos 90 a produção de videoclipes passou a ser feita em série e pouco há de memorável com raríssimas excessões, como os clipes de Michel Gondry, Spike Jonze e Chris Cunningham. Na última década, com a decadência da MTV e da indústria fonográfica, parecia que os videoclipes estavam desaparecendo. Hoje, no entanto, com o crescimento da banda larga da internet e o barateamento da produção de vídeo, os videoclipes estão voltando com força total e muitos criadores de hoje estão bebendo na riquíssima fonte dos video artistas dos anos 80.

O melhor exemplo disso é o novo clipe da banda australiana Midnight Juggernauts, que se apresentou em São Paulo no último sábado, na casa noturna Hot Hot. O videoclipe Vital Signs exibe várias imagens onde é utilizado o efeito especial slit scan, que faz com que os objetos estiquem ou se distorçam. Já existe um burburinho na internet taxando o clipe de plágio do vídeo The Fourth Dimension, de 88, dirigido por Zbig Rybczynski. A mesma polêmica aconteceu no ano de 89 no Brasil em relação à abertura da novela Tieta, criada por Hans Donner e que também utiliza o efeito slit scan.

Zbig Rybczynski foi ganhador do Oscar de animação em 83, com o curta Tango e em 84 ganhou o prêmio de vídeo do ano da MTV com Close To The Edit do Art Of Noise. Para receber seu Oscar em 83 Zbig teve de fugir da Polônia e com isso acabou se fixando nos Estados Unidos onde estabeleceu a produtora Zbig Vision, pioneira na produção de vídeo em alta definição.

O efeito especial slit scan foi desenvolvido nos anos 60 por Douglas Trumbull que fez os efeitos especiais do filme 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick. O slit scan pode ser visto na cena conhecida como “star gate”, a de maior suspense do filme e a mais psicodélica, quando  o astronauta é jogado num túnel de estrelas que vão esticando quando a nave passa. Desde então o efeito slit scan foi utilizado de inúmeras maneiras, mas principalmente em imagens inanimadas, como objetos ou letras. Trumbull foi indicado várias vezes ao Oscar por seu trabalho em filmes como Blade Runner, Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Jornada nas Estrelas.

Nos anos 80 o mago da animação e video artista polonês Zbigniew Rybczynski desenvolveu o efeito de outra maneira, aplicando-o sobre o corpo humano. O vídeo The Fourth Dimension, produzido no centro cultural novaiorquino The Kitchen, revoluciona o efeito slit scan com imagens de um casal se distorcendo. O efeito é empregado também em objetos, como uma porta e uma janela. Em The Fourth Dimension o slit scan foi produzido da forma tradicional, filmado em película cinematográfica e manipulado à mão pelo próprio Zbig em seu estúdio. Na verdade Zbig queria fazer a pós produção em vídeo digital, uma tecnologia que naquela época acabava de ser lançada no mercado, mas ainda era muito caro. The Fourth Dimension foi uma produção financiada por instituições artísticas norte americanas como a NYSCA e NEA e pelo The Kitchen e o orçamento não foi suficiente para pagar uma ilha de edição digital.

Em 89 Zbig foi convidado por Hans Donner para produzir os efeitos especiais da abertura da novela Tieta, que utilizaria o efeito slit scan. Sem chegar a um acordo sobre a remuneração de Zbig, nem sobre qual seria exatamente o papel do oscarizado artista polonês, Hans Donner resolveu produzir a abertura com sua própria equipe e utilizando a pós produção da Globo Computação Gráfica, de José Dias. Na Globo o efeito slit scan foi produzido pela primeira vez no mundo em computação gráfica. Os computadores da Globo trabalharam por 14 dias ininterruptamente para calcular a simulação do efeito e reproduzí-lo.

Até hoje a abertura de Tieta chega a ser mais conhecida que a própria novela. Na época a abertura causou furor antes mesmo de ser lançada, tanto que o todo poderoso Boni, então vice presidente de operações da Globo, resolveu vetar a belíssima música de Dori Caymmi, composta especialmente para a abertura e cantada por Nana Caymmi, e ordenou que fosse colocada a lambada Tieta com letra de sua autoria e música de Luís Caldas.

Na semana da estréia uma matéria do jornal O Estado de São Paulo acusou Hans Donner de plagiar Zbig. A jornalista, no entanto, não procurou entrevistar Hans Donner e não sabia que o próprio Zbig havia sido convidado para fazer a abertura e estava ciente de todo o processo.

Hoje o efeito slit scan pode ser conseguido com o plugin de um simples programa de edição de vídeo, o After Effects, que pode ser instalado em qualquer PC. Zbig, um visionário, não conseguiu se firmar no competitivo mercado de videoclipes e comerciais dos Estados Unidos e, desde os anos 90, vive na Europa onde produz filmes e leciona.

O vídeo Vital Signs, criado pela produtora australiana Krozm, tem imagens praticamente idênticas ao vídeo The Fourth Dimension, tão parecidas ou mais com o vídeo de Zbig que as imagens da abertura da novela Tieta. O efeito slit scan é utilizado em praticamente todas as cenas do clipe e de forma semelhante ao vídeo de 88.

É plágio ou apenas uma livre interpretação? De qualquer forma o vídeo dos Midnight Juggernauts reverencia um dos maiores nomes da videoarte até hoje. Sinais de vida no planeta videoclipe

Veja abaixo o curta The Fourth Dimension, Vital Signs, a abertura de Tieta e a memorável cena de 2001 Uma Odisséia no Espaço.


Zbigniew Rybczynski – The Fourth Dimention por 33335a67

 

 

 

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