O Diabo veste pantufas

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O Diabo Veste Prada, por conta do filme que é campeão de bilheteria, está na lista de best-sellers brasileiros

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O Diabo Veste Prada, livro publicado no Brasil pela editora Record, é best seller internacional absolutamente necessário pra quem se interessa pelo mundo fashion e quer saber o que se passa nos bastidores de uma grande revista internacional cuja editora é uma das pessoas mais influentes da indústria da moda no mundo.

No livro Lauren Weisberger, a autora, conta sua história real como assistente de Anna Wintour, editora da Vogue americana. Weisberger porém mascarou o livro como “ficção” e utilizou nomes fictícios. Ela não admite que o livro seja uma vingança ou uma atitude oportunista por ter sido demitida após um ano como assistente pessoal de Wintour. No entanto todo mundo sabe que Miranda Pristley é o nome que ela inventou para a poderosa editora, considerada a terceira pessoa mais poderosa da indústria da moda, atrás apenas de Rose Marie Bravo (executiva da grife britânica Burberry) e Miuccia Prada.

Weisberger, com sua passagem de um ano pela maior revista de moda do mundo, conseguiu dinheiro e fama meteórica contando os podres de sua ex-chefe. Anna Wintour nunca se pronunciou sobre o difamatório livro mas uma biografia sua está sendo preparada por Jerry Oppenheimer que já escreveu a história de Martha Stewart, a magnata americana que cumpriu pena por dever ao fisco americano.

Em O Diabo Veste Prada Andrea Sachs, recém formada jornalista, sai do mais profundo desemprego para um emprego de sonhos como assistente pessoal da poderosa editora de uma das principais, se não a maior revista de moda do mundo, a Runway (Vogue). Passa por uma seleção absolutamente limpa, não conhece ninguém do meio e é escolhida entre várias candidatas. Em pouco tempo percebe que o que é sonho para uns pode ser o pesadelo de outros, pois a chefe em questão não tem consideração com suas funcionárias, é excêntrica e mimada e trata todos como cachorros, exigindo sem explicar e cobrando mais do que deve. O resultado é até engraçado quando se trata dos relatos irônicos sobre a personalidade de Anna Wintour/Miranda Pristley e as cenas excêntricas protagonizadas por ela nos bastidores das fotos, nos desfiles de moda e nas festas e viagens.

O problema é a insuportável vida sem graça de Andrea: um namorado professor de alunos carentes na periferia de N.York e uma amiga com problema de alcolismo e pluralidade de parceiros sexuais. Pelos relatos que a autora faz das pessoas mais próximas da protagonista, seu namorado e sua companheira de apartamento, se percebe sua visão moralista e preconceituosa e seu caráter medíocre. Sua dissimulada ambição é fantasiada de falsos pudores em julgamentos de caráter cansativos e que não convencem.

O que se vê é o mais profundo deslumbramento com o “grand monde” dos bastidores fashion e a falta daquele nosso jogo de cintura brasileiro que faz com que tantos conterrâneos tenham se destacado no mundo da moda internacional. É um festival de clichês ultrapassados travestidos de sub-intelectualidade e sem nenhum contraponto inovador ou revolucionário como proposta aos julgamentos éticos que ela faz.

Pra se ter uma idéia o sonho da recém formada protagonista Andrea/Lauren é trabalhar na revista New Yorker, uma das mais conservadoras e tradicionais revistas americanas, que já recebeu em suas páginas escritos de Truman Capote entre tantas outras estrelas das letras americanas. Sua passagem pela revista Runway/Vogue seria para conseguir contatos ou uma apresentação. Não se deveria esperar que uma recém formada jornalista com pretensões de reconhecimento intelectual tivesse propostas e aspirações novas, revolucionárias e modernas em relação ao mundo editorial, ao contrário e querer de saída ter o mesmo destino de um Truman Capote?

Mas não: no mais equivocado clima Sex and the City, naquilo que ele tem de mais fútil e não em seu relato astuto e satírico da vida das mulheres novaiorquinas, Weiseberger mostra que o que ela quer mesmo é subir na vida, e rápido. Seu alter ego politicamente correto, a protagonista de O Diabo Veste Prada Andrea Sachs é tudo que ela não é, ou seja, é a mascara que ela usa pra esconder sua ambição desmedida, sua preguiça e seu intelecto medíocre. Pois então alguém me explique porque é que uma jornalista em começo de carreira e com tanto moralismo não vai trabalhar numa organização sem fins lucrativos em prol dos mais necessitados, ou numa nova revista inovadora, dirigida por jovens e inteligentes editores?

Ao invés disso ela (na vida real e no livro) se torna o capacho da pessoa mais poderosa no mundo da futilidade que ela tanto condena. E pior, ao ser demitida e vagar por meses desempregada na fashionista cidade de N.York (isso na vida real, pois o livro acaba com a protagonista em temporada feliz na entediante região suburbana do estado de N.York – upstate N.York – na casa dos pais), ela vende por cerca de 200 mil dólares os direitos de um livro mal escrito sobre seu cotidiano com a chefe celebridade. Ela queria New Yorker ou People (o equivalente americano da nossa revista Caras)?

Weisberger conseguiu, depois de muito tempo, um emprego numa revista desconhecida de turismo e trabalha em casa, enquanto se divide entre analisar propostas de estúdios de cinema e conceder entrevistas insuportáveis onde afirma que sua história real como assistente de Anna Wintour, na Vogue, foi apenas uma inspiração para seu livro e agora, livre do pesadelo de trabalhar na maior revista de moda do mundo, pode usar chinelos e pantufas para trabalhar em casa. Visão limitada, falta de experiência de vida e moral “middle America”. É o que ela mostra ao se deparar com as vantagens de trabalhar na Runway/Vogue e “ser obrigada” a usar no trabalho roupas das grifes mais veneradas como Prada, Gucci e Dior (todas fornecidas pela revista) e freqüentar as festas mais badaladas da cidade, repletas de convidados como Donald Trump ou Gwyneth Paltrow.

Uma história que mostra os bastidores do mundo editorial de moda em N.York dá esperança aos leitores que o livro traga cenas e passagens com cenários tão comuns na série Sex and the City, mas a visão limitada e a falta de sofisticação da escritora, bem como seu texto raso, passam longe dos diálogos inteligentes da série da HBO que tornou sofisticadas quarto atrizes obscuras do lado B de Hollywood. Ao mesmo tempo que a autora se pretende uma intelectual, seu livro não passa de uma fofoca infinita sobre o cotidiano de sua ex-chefe, com direito a relatos demorados sobre comida, lavanderia, criadagem e outros detalhes sórdidos tão consumidos hoje pelo culto à celebridade. No entanto tudo que a autora coloca como politicamente incorreto no livro, como os ataques inexplicáveis de Anna/Miranda ou a opulência e futilidade do mundo da moda e da noite em N.York, são exatamente o que há de interessante. Pena que o tempo inteiro a autora queira passar a idéia de culpa, sem conseguir, sem convencer.

O Diabo Veste Prada é leitura inprescindível pra quem quer entender de que se trata grande parte da atual juventude americana que vota em George Bush, assiste ao canal de notícias Fox, porta-voz da “guerra ao terror”, e não tem a menor idéia do que se pode fazer em relação ao Iraque (que tal nada?).

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