Entrevista com Alex Medeiros, diretor de #garotas – o filme

Bitsmag

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Filme trata de rito de passagem em meio a muita festa e rock’n’roll

Estreia esta quinta, 12 de novembro, #garotas – o filme, produção nacional da Accorde Filmes (Em Teu Nome) que traz várias características diferentes da maioria da produção brasileira. Um elenco predominantemente feminino estrela uma narrativa tragicômica com um resultado bem interessante, divertido e bem oposto ao politicamente correto.

Em #garotas – o filme três jovens na faixa dos vinte anos vivem como se não houvesse amanhã, frequentando a noite, bebendo, dançando e pouco se importando com o que possam dizer. O estilo de vida errático parece dar sinais de cansaço em pelo menos uma das amigas que acaba de voltar de uma temporada de um ano em N.York. Focada em tentar seguir a vida sem tanta baderna, Beth (Giovana Echeverria) planeja passar o réveillon com sua avó quando recebe a visita inesperada de suas amigas inseparáveis, Milena (Barbara França) e Carina (Jeyce Valente), acompanhadas de um séquito de amigos loucos para festejar e munidos de um arsenal de bebidas. Daí em diante o céu é o limite…

As comédias Se Beber Não Case e Superbad – É Hoje certamente são influências que inspiraram o escritor e diretor Alex Medeiros, diretor artístico do canal Gshow, criador da primeira websérie da Globo, A Lei de Murphy. Filmes mais sombrios como Spring Breakers – Garotas Perigosas e Bling Ring – A Gangue de Hollywood também são influências usadas na criação de #garotas – o filme. Muita polêmica e escárnio envolvem a narrativa que trata de temas sérios com humor e também de maneira crua.

Alex Medeiros conversou com o Bitsmag sobre a produção do filme:

Bitsmag – Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre mulheres?

Alex Medeiros – De modo geral, sinto muita falta de personagens femininos interessantes no cinema, em todos os gêneros e estilos. Então, foi uma escolha muito natural quando pensei em fazer um filme sobre rito de passagem, um dos grandes temas recorrentes da filmografia mundial. Além disso, quando comecei a escrever, minha filha adolescente estava no Canadá, fazendo intercâmbio. Nós sempre assistíamos juntos a comédias como Superbad – É Hoje e Se Beber… Não Case. Pensei que gostaria de escrever algo que ela curtisse. Mas também decidi muito cedo que não queria fazer só uma comédia “trash”, simplesmente transpondo o protagonismo dos homens para as mulheres. Eu estava em busca de algo que ainda não tinha sido feito. Acho que isto passa não só pela opção por personagens femininos em si, mas pelas situações e pelo momento de vida que eu escolhi retratar. Por exemplo, muitos filmes sobre amadurecimento são sobre adolescentes. Eu quis falar de um momento posterior, o fim da faculdade, esse marco meio definitivo da entrada na vida adulta, com suas escolhas e consequências. De todo modo, o cinema ainda nos deve mais narrativas instigantes sobre mulheres.

Bitsmag – Fale um pouco sobre o processo de seleção do elenco.

Alex Medeiros – Sempre tive a intenção de trabalhar com naturalismo, então a escolha do elenco era fundamental, tanto que procurei as três atrizes centrais praticamente antes de qualquer coisa. Fui muito feliz, tanto no processo, quanto na escolha. Fizemos um só dia de testes para as protagonistas. Os testes eram leituras e improvisos em cima de algumas cenas do roteiro, sempre em grupos. Já tinha trabalhado com a Giovana Echeverria e chamei ela para participar. Ela me indicou a Jeyce Valente, que fez o primeiro teste do dia. A Barbara França fez o último. Parece até que foi alguma conjunção astral ou coisa parecida, mas vou chamar de “sorte”. A química entre o trio era a coisa mais importante do filme. Precisamos acreditar que essas três meninas são amigas da vida toda. Depois, as três participaram dos testes para o elenco masculino, o que também fluiu muito bem. Este processo todo foi decisivo para o resultado do filme. Trabalhamos com ensaios e improvisos o tempo todo, até a hora do set.

Bitsmag – O filme será lançado em meio a uma grande mobilização feminista no Brasil. Como você vê a repercussão do filme em meio a esse cenário?

Alex Medeiros – Sinceramente, estou empolgado com este contexto, até porque estou inserido nele. Minha filha fez o ENEM com o tema da violência sobre a mulher. Foi um momento marcante para ela, para minha mulher e para mim. Não pensei no meu filme como uma obra política, mas, de certa forma, tudo que você fala e faz pode ser político. No meu filme, as personagens cuidam da própria vida e fazem o que bem entendem com o seu corpo. É louco pensar que as mulheres ainda precisam lutar por este direito tão básico. Temos a onda destes movimentos feministas, absolutamente necessários, e também temos essa contracorrente escrota de figuras machistas patéticas que praticam agressões criminosas e covardes pela internet, fora todas as agressões que seguem acontecendo, nas casas e nas ruas. Essa é uma briga que vale a pena comprar. Fiz o filme porque tenho algo a dizer: “Ninguém tem o direito de te dizer o que fazer com a sua vida; ninguém tem o direto de te julgar pelo modo que você fala, se veste, com quem você anda.” Eu quis contar uma história universal sobre crescimento; para divertir, emocionar e surpreender. E escolhi conscientemente ambientar esta história no aqui e no agora; não quero saber do passado. Então, se meu filme puder contribuir para este momento de alguma forma, ficarei muito feliz e realizado. Não posso prever como o filme vai ser recebido nas salas. Não tenho a pretensão de ser um porta-voz, mas, até aqui, tive uma resposta muito positiva de mulheres de várias idades e origens sociais. Já me perguntaram se eu previ estes movimentos. Respondi que estes avanços todos na luta pela liberdade já estavam no ar de uma maneira muito forte; o filme é um reflexo disso.

Bitsmag – Você é um profissional mais ligado a mídias inovadoras. Porque resolveu fazer um filme e lançar nos cinemas?

Alex Medeiros – Levo o cinema muito a sério e pensava há tempos em fazer um filme, como um projeto autoral, mas também porque sinto falta de diversidade no cinema brasileiro. Estamos num momento interessante de crescimento e eu queria contribuir. Vinha adiando esta experiência por conta de tantos compromissos com a TV e a internet. Eu me considero um profissional do audiovisual de forma ampla; já desempenhei muitas funções diferentes e acho importante este intercâmbio. Mas o cinema é a base de tudo que fazemos, narrativamente. O que eu tentei fazer com este filme foi justamente aplicar tudo que exercitei em outras mídias e plataformas ao cinema. Isto se refletiu, principalmente, no dinamismo da produção: o filme foi rodado em apenas dezoito diárias, com uma equipe jovem, com muitos profissionais se desdobrando em diferentes funções. Por exemplo, meu assistente de direção era o Rafael Costa, simplesmente o produtor do filme! Algumas sequências precisamos repensar completamente no próprio set, por conta de diferentes imprevistos. Tivemos momentos de guerrilha, mas também tivemos momentos “Hollywood”… E essa loucura toda só foi possível por causa da minha experiência prévia com a internet. Além disso, as ferramentas que temos hoje me permitiram ter um controle total sobre o processo, e não creio que isto seria possível numa produção edificada nos moldes mais tradicionais.

Bitsmag – Como você avalia a distribuição de filmes hoje? Qual a melhor maneira de divulgar um filme hoje em dia?

Alex Medeiros – É uma questão muito difícil, principalmente para filmes independentes. Sabemos como são distribuídos os filmes de grandes investimentos: muitas cópias, posters, outdoors, spots na TV, promoções etc. Este não é o caso do meu filme. Estamos sendo distribuídos pela Paris Filmes e estou muito feliz pela aposta do Marcio Fraccaroli (presidente na empresa) na nossa proposta. Mas claro que sabemos que somos um peixe pequeno num aquário grande. #garotas vai ser lançado uma semana depois do novo 007 e uma semana antes do novo Jogos Vorazes. Não sei o que vai acontecer. O que estou fazendo é o que está ao meu alcance: produzindo conteúdo extra, como vídeos de making of, pílulas exclusivas que são enviadas a diferentes portais de cinema, temos uma fan page no Facebook que administramos junto com o pessoal do marketing da Paris. Estamos buscando engajar pessoas que querem algo diferente, não bater de frente com os blockbusters. Acho positivo que o público está indo às salas no Brasil. Mas também acho que podemos diversificar esta oferta. É cedo para eu avaliar os resultados, claro, mas entendo que trabalhar nas frestas do mercado faz parte da aposta na diversidade.

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Bitsmag – Qual seria seu conselho para quem está começando a produzir filmes hoje no Brasil?

Alex Medeiros – Nossa, tenho tantos… Vou falar sobre audiovisual em geral. Estudem. Tudo. Roteiro, produção, direção, edição, distribuição, financiamento. O audiovisual é uma indústria. Entenda isto e você conseguirá transmitir suas ideias autorais com muito mais força. Tudo que fazemos diz respeito a processos obrigatoriamente coletivos. Não se faz audiovisual sozinho. Não se ache melhor que ninguém se você é o diretor. Não se ache pior que ninguém se você está carregando peso. Carregue peso. Sue. Exerça rigor. Esgote possibilidades. Procure os colaboradores certos. Não faça questão de trabalhar com seus amigos. É sempre mais fácil encontrar alguém para te dar um tapinha nas costas do que uma opinião sincera e construtiva. Não procure ingressar neste setor por dinheiro. Venha fazer isto se você de fato enxerga o mundo através de imagem e som o tempo todo, se você respira isto e se você sente necessidade de se expressar desta forma.

Entrevista com Alex Medeiros