Bruce LaBruce – entrevista exclusiva

Bitsmag

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Audacioso diretor canadense esteve no Rio para lançar sua mais nova produção, Gerontophilia

O diretor underground canadense Bruce LaBruce gosta de chocar, ou pelo menos gostava até bem pouco tempo. Quase todos seus filmes flertam com a pornografia, sempre com novas e inusitadas perversões. LaBruce já nos presenteou com gays skinhead, zumbis fazendo sexo e até sexo explícito com pessoas deficientes em filmes como No Skin Of My Ass, Otto, Hustler White, Super 8 and ½ e The Raspberry Reich. Gerontophilia, seu filme mais recente, sobre um lindo jovem de 18 anos que tem tara por homens bem mais velhos, foi um dos destaques da Mostra Mundo Gay do Festival do Rio deste ano (ainda é possível ver alguns filmes na repescagem até o dia 17 de outubro).

Gerontophilia é o filme mais comportado e otimista de Bruce LaBruce até agora. É uma espécie de versão gay de Ensina-me a Viver e traz no elenco o lindo ator franco canadense Pier-Gabriel Lajoie e o veterano Walter Borden.

Leia a seguir a entrevista realizada com o diretor Bruce La Bruce no Armazém da Utopia, durante sua passagem pelo Rio. Por Duda Leite

Bitsmag – Então Bruce, velho é o novo preto?

Bruce LaBruce – Eu adoraria ver as pessoas mais velhas entrarem na moda novamente. Tanto na cultura pop quanto na mídia somos bombardeados pela juventude o tempo todo. Eu acho que os mais velhos deveriam ser as estrelas por um tempo.

Bitsmag – Seu filme lembra muito a história de Ensina-me a Viver (Harold & Maude). Foi uma referência para você em Gerontophilia?

Bruce LaBruce – Sim, no meu filme é a história de um garoto de 18 anos que tem uma namorada, portanto não é necessariamente gay, mas tem uma fixação por homens bem mais velhos. Eu adoro Ensina-me a Viver e pensei nele quando estava escrevendo, mas acabou virando uma outra coisa. No meu filme o personagem do jovem tem um fetiche por pessoas mais velhas, enquanto que em Ensina-me a Viver o rapaz se apaixona por uma mulher bem mais velha mas não é um fetiche, é diferente. Para mim é mais como uma Lolita ao avesso. Em Lolita um senhor mais velho tem uma forte atração sexual por uma garota bem mais jovem. No caso do meu filme é exatamente o oposto: é o jovem que tem essa fixação por este homem bem mais velho que depois acaba virando algo mais profundo. O velho é o objeto do desejo. No meu filme o corpo do personagem mais velho é bem mais explorado pela câmera.

Bitsmag – Nos seus filmes você sempre trabalha com tabus como gays skinhead, ou zumbis fazendo sexo, como em Otto e L.A. Zombie. Você acha que o público pode ficar chocado com a exposição de um corpo de um homem de 80 anos?

Bruce LaBruce – Não sei se “chocado” é exatamente a palavra. Mas quando o filme foi exibido em Veneza um jornalista me disse que havia amado o filme mas que tinha achado nojento (risos). Ainda estou chocando as pessoas! Acredito que existe um tabu em relação à sexualidade de pessoas mais velhas. Mas eu queria que este filme fosse mais acessível e mais romântico do que meus filmes precedentes. Acredito que as pessoas não deveriam nem pensar tanto na diferença de idade entre os personagens, porque eles têm uma relação muito forte, eles têm uma química juntos. Este foi o desafio do filme: mostrar essa relação como algo natural sem me preocupar com a idade e o sexo deles.

Bitsmag – Você considera Gerontophilia seu filme mais romântico até agora?

Bruce LaBruce – Eu queria fazer algo totalmente diferente. Fiz sete longas-metragens e todos tinham sexo explícito. Alguns eram extremamente pornográficos, achei que já havia esgotado isso, portanto quis fazer um filme mais acessível. Consegui financiamento com o governo do Canadá, é minha maior produção até agora.

Bitsmag – Pretende seguir agora nessa linha, digamos, mais comportada?

Bruce LaBruce – Os jornalistas adoram dizer: “Ah, agora ele vai seguir numa outra direção completamente diferente”, mas não é verdade. Não sei o que vou fazer agora, depende de várias coisas, inclusive de onde vou conseguir dinheiro. Nunca sei o que vou fazer em seguida. Depois de Gerontophilia eu já fiz um novo filme experimental, que será lançado no ano que vem e que tem uma cena de gozo. Por outro lado, gostaria de fazer uma outra grande produção. Como cineasta a um certo ponto você quer atingir um público maior e fazer um projeto mais ambicioso.

Bitsmag – Você vai voltar ao tema de Gerontophilia como fez com zumbis em L.A. Zombie?

Bruce LaBruce – Só faria se fosse um filme “pornô geriátrico”. Essa seria a única possibilidade. O título seria Older & Bolder (algo como “Mais Velho e Mais Atrevido”).

Bitsmag – O filme também é bem otimista, principalmente para a comunidade gay onde a juventude é supervalorizada. Você acha que este filme pode trazer uma certa esperança para os gays?

Bruce LaBruce – Eu acho que as pessoas têm uma visão muito pequena. Quando você é jovem e lindo você ignora todas as pessoas que não são jovens e bonitas. Mas eles não se tocam que um dia eles também vão envelhecer. E o que vão fazer então? Eu escolhi para o filme o ator Pier Gabriel Lajoie, um lindo ator franco-canadense. Ele tinha 18 anos quando filmamos. Eu realmente queria alguém muito bonito e que sentisse atração pelo homem mais velho, justamente para passar o que eu queria dizer. Às vezes as pessoas podem ter desejos bem diferentes, não precisa ser sempre o mesmo padrão. Algumas pessoas são bem democráticas e têm desejos bem diferenciados. Já vi acontecer isso antes. Tenho um amigo em Nova York muito bonito. É um negro, tem 19 anos, bombado, e todos os garotos e garotas da idade dele querem transar com ele, mas ele só gosta de senhores judeus gorduchos de 45 anos para cima!