Black is Beautiful em clipes, filmes e muita música

Black Is Beautiful
Tony Tornado

Vamos usar o equívoco lamentável da agência Neogama para valorizar a cultura afro descendente

Esta semana aconteceu uma celeuma na internet brasileira por conta da campanha publicitária do novo papel higiênico Personal Vip Black, um papel higiênico preto. A campanha foi criada por uma agência paulistana chamada Neogama para o produto da empresa Santher.

A campanha de lançamento é estrelada pela “global” da vez, a ruiva Marina Ruy Barbosa. Os comerciais da agência são todos iguais, estilo anúncio do supermercado Guanabara e todos tem os mesmos atores.

Em fotos de Bob Wolfenson a atriz está vestida apenas com o tal papel higiênico preto. Até aí não há polêmica nenhuma, apenas uma direção de arte bem pobre, em fotos que nem parecem ter sido clicadas por um nome tão conhecido da fotografia de publicidade no Brasil. A questão que criou polêmica surgiu na divulgação da campanha nas redes, com a hashtag #blackisbeautiful.

Porque tamanha indignação pelo uso da frase? O slogan em questão surgiu como palavra de ordem do movimento Black Power nos Estados Unidos nos anos 60 e 70, mais especificamente na questão de identidade, comportamento, arte e estilo. “black is beautiful” tem a ver com a aceitação na sociedade da identidade do povo afro-descendente.

O estilo “black is beautiful” foi eternizado na moda, na música e no cinema em filmes do gênero blaxploitation, protagonizados  por atores afro-descendentes, dirigidos e produzidos por afro-descendentes. O mais conhecido desses filmes é o thriller Shaft, cuja música da abertura leva o mesmo nome e é extremamente popular, cantada por Isaac Hayes.

Muito cabelão comprido e eriçado, sem a preocupação de alisar o cabelo duro. Um figurino que misturava os coloridos e a mistura de texturas da moda hippie com saltos de plataforma, tanto para homens como para mulheres. Tudo muito colorido e brilhante, tudo para chamar a atenção, tudo para mostrar que a comunidade afro-descendente não pretendia mais se esconder.  Era o auge da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos.

O funk e o soul americanos eram os estilos musicais em voga com duas gravadoras que representavam a maioria dos artistas do gênero: Stax, de Memphis e Motown, de Detroit. Isaac Hayes era o maior artista da Stax e a Motown lançou para o mundo alguns dos maiores artistas do soul como Supremes, Diana Ross, os Jackson Five, Marvin Gaye e Stevie Wonder, entre outros.

James Brown tinha seu próprio selo, o qual passou por diferentes nomenclaturas, mas em 1971 se chamava People Records e foi adquirido pela major Polydor. O som invadiu as rádios e pistas do mundo todo e no final dos anos 70 se fundiu com a discoteca.

No Brasil tivemos nossos expoentes, como o ator e cantor Tony Tornado que chegou a viver nos Estados Unidos e quando voltou ao Brasil difundiu a moda e o estilo “black is beautiful”. Tim Maia também teve grande influência do movimento, tanto no visual quanto em sua música. Elis Regina gravou o super hit “Black is Beautiful”, de Marcos e Paulo Sergio Valle. Na letra ela diz querer “um homem de cor, um negro, do Congo ou daqui”.

Gerson King Combo e a Banda Black Rio são outros dois expoentes do funk americano “abrasileirado”.  No Rio de Janeiro foram muito populares nos anos 70 e 80 os bailes de charme, onde se tocava George Clinton e o Parliament-Funkadelic, James Brown, The Bar Kays, Bootsy Colins, The Temptations e tantos outros.

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É lamentável! Com tanta informação sobre essa riquíssima cultura uma agência de publicidade consegue produzir um comercial pobre visualmente e ainda por cima negando a cultura afro-descendente, enquanto utiliza as palavras de ordem da luta desse povo pelo reconhecimento de sua identidade.

Não dá nem para argumentar. A Neogama deve ter ganhado milhões para fazer essa campanha, gravada numa salinha mínima e com essa “direção de arte” nula, demonstrando uma extrema falta de cultura. O resultado é cafona e equivocado. Toda publicidade é boa publicidade? Infelizmente para um produto novo parece que sim. Apesar da controvérsia o papel higiênico preto está sendo muito divulgado.

Vamos aproveitar a polêmica para pesquisar e desfrutar dessa cultura sensacional que é o “black is beautiful”? Aí vai muito funk americano dos anos 70 e filmes blaxploitation.

Um seriado que está em cartaz na HBO, mostra muito do estilo “black is beautiful”. The Deuce se passa na N.York dos anos 70. A trilha é sensacional, com pérolas de Curtis Mayfield. James Franco e Maggie Gyllenhaal encabeçam o elenco. (veja abaixo a seqüência de abertura)

Na Netflix está em cartaz o documentário produzido pela rede PBS americana: The Black Panthers: Vanguard of the Revolution, que conta a história do movimento ativista. O rapper Kanye West é filho de um Pantera Negra (veja trailer abaixo).

Mais abaixo há uma entrevista com uma ativista falando sobre o estilo “black is beautiful”.

Tem ainda Tony Tornado e um documentário sobre o grande Tim Maia. Observe o estilo!

Abertura do seriado The Deuce da HBO:

Documentário sobre os Panteras Negras:

Entrevista sobre o estilo Black Power:

Documentário sobre Tim Maia:

Tony Tornado:

 

 

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