Bitsmag conversa com Samantha Fuller

Samantha Fuller Mário Miranda Filho

Cineasta apresenta na Mostra de Cinema documentário sobre seu pai, Samuel Fuller

Na Mostra de Cinema de SP é difícil encontrar alguma unanimidade em relação aos filmes, dada a enorme variedade de ofertas de filmes novos, clássicos, brasileiros e das mais exóticas nacionalidades. Porém, se é que houve alguma unanimidade este ano, foi Samantha Fuller. Sem dúvida, ela foi a convidada mais simpática desta Mostra. Samantha é a filha única do mítico diretor norte-americano Samuel Fuller e veio apresentr “A Fuller Life, seu “presente de aniversário” que ela fez em homenagem ao centenário do seu pai. Quem sai ganhando é o público: o documentário é uma pequena joia, no meio dos mais de 370 filmes exibidos em São Paulo. bitsmag conversa com samantha fuller

Samantha teve a ótima ideia de convidar alguns de seus amigos e colaboradores de Samuel Fuller como James Franco, Constance Towers, Joe Dante, Wim Wenders e William Friedkin, entre outros, para ler trechos da autobiografia de seu pai. Para ilustrar os depoimentos, Samantha usou trechos de filmes de 16mm que estavam escondidos numa caixa em seu escritório em Los Angeles, onde ela vive com sua mãe, a atriz Christa Lang e sua filha Samira. Samantha conversou com o Bitsmag no café do cinema Espaço Itaú de Cinema.

Por Duda Leite

Bitsmag – Você pode nos contar como surgiu este projeto? Sei que você pensou no filme como um presente de aniversário para seu pai, que faria 100 anos.

Samantha – Meu pai me teve muito tarde. Sou sua única filha, que eu saiba! (risos) Quando eu nasci, ele tinha 63 anos. E eu sempre queria fazer uma festa para seu aniversário. Ele era um homem muito modesto e dizia: “Não precisa fazer uma festa para mim! Quando eu fizer 100 anos, aí podemos fazer uma grande festa!” E sempre que ele via uma estrela cadente e podia fazer um desejo, ele dava uma piscada e me dizia que era pelos 100 anos. Então eu achei que eu devia isso para ele. Era algo que eu tinha que fazer. Mesmo sem sua presença física, seu espírito estava muito presente. E no seu aniversário de 99 anos, eu pensei que deveria fazer algo especial para seu centenário, algo que pudesse viver para sempre, em espírito. O que poderia ser melhor do que fazer um filme? Mas eu não queria fazer um documentário convencional, existem alguns feitos sobre ele, com entrevistas, etc. Eu queria contar a sua história. Felizmente antes da sua morte ele escreveu sua autobiografia, lançada em 2002, portanto, eu já tinha um roteiro. O difícil foi editar o livro de 600 páginas para um filme de 80 minutos. Escolhi minhas histórias favoritas, desde sua infância. Uma grande parte do filme se foca na sua experiência na guerra, porque acho que foi uma parte decisiva na sua vida. Foi uma experiência que o marcou tanto como pessoa, como diretor de cinema. Ele não teria feito aqueles filmes se não tivesse ido à guerra.

Bitsmag – No filme, uma das minhas frases favoritas é quando ele diz que “ninguém pode voltar da guerra sem estar ferido, morto ou louco”. Como você acha que ele voltou da guerra? Como ele foi afetado por esta experiência?

Samantha – Foi algo muito forte. Ele é um veterano, um sobrevivente. Ele esteve presente em três das maiores guerras: África, Sicília, e presenciou o Dia D. Ele esteve em campos de concentração na Alemanha… Se você me perguntar qual das três formas ele voltou, “morto, ferido ou louco”. Ele voltou ferido, ele levou um tiro. Ele ficou louco? Claro! Como ele poderia voltar são? Ele sofria de histeria pós-guerra. Mas ele usou seus filmes como uma catarse. Foi uma maneira de se curar. E reviver estas experiências, através dos seus filmes. Foi uma forma de terapia. Ele foi à guerra com o espírito de um jornalista, afinal era o que ele era: um repórter. E, quando ele voltou, decidiu que tinha que contar as histórias que tinha vivido durante a guerra. E foi exatamente o que ele fez. Mas, com certeza, ele voltou traumatizado.

Bitsmag – Todo o filme foi rodado no escritório do seu pai? Você ainda mora lá?

Samantha – Sim, é minha casa! Passo muito tempo no seu escritório. Após sua morte em 1997, eu decidi não mexer em nada. Algumas universidades e a Academia queriam seu acervo. Talvez algum dia eu ceda o material, mas nos últimos 16 anos, eu não consegui me livrar de nada. Porque achei que se eu esvaziasse seu apartamento, seria perdê-lo de vez. Então mantive o lugar intacto. Passei muitas horas lá, mas não me sentia solitária. Ele estava sempre comigo. Foi uma oportunidade única filmar lá, porque é o seu escritório e é incrível. Nenhum diretor de arte poderia fazer melhor. É autêntico! Vou manter desse jeito. Ainda tem muito material lá para eu pesquisar. Ele era muito prolífico. Existem vários roteiros ainda não filmados guardados lá. Meu passatempo favorito é ficar lá lendo seus escritos.

Bitsmag – Você mencionou que ele deixou vários roteiros não filmados. Tem planos de levar algum deles para as telas?

Samantha – Existem vários roteiros de gêneros bem distintos: ele escreveu westerns, filmes de guerra, filmes “noir”… ou seja: posso escolher entre vários gêneros. Foi uma escolha difícil escolher qual eu vou filmar primeiro, mas fiz uma lista com os meus 10 favoritos. Mesmo que eu não dirija, achei que estes seriam os principais. Quando ele escrevia um roteiro, ele já dava todas as indicações para a câmera, etc. Ele já dirigia quando escrevia. De certa forma, vai ser como se ele estivesse dirigindo. Mas o primeiro que eu escolhi para dirigir é um “film noir”. Foi o que mais me inspirou. Eu adoraria dirigir eu mesma, e encontrar minha linguagem própria. E, depois de dirigir este documentário, me sinto segura para fazer. Se chama “Snug Harbour”.

Bitsmag – Sei que é uma pergunta difícil para você responder, mas quais temas você acha que seu pai se interessaria hoje em dia?

Samantha – Ele era um repórter, por isso gostava das manchetes da sua época. Mas ele também gostava muito de história. Um dos roteiros por exemplo é sobre o Presidente Lincoln. Ele tinha interesses muito diversos. Não posso responder por ele, mas acho que nos últimos 16 anos, ele provavelmente teria escrito uns 40 roteiros novos! Com tanta coisa acontecendo.

Bitsmag – Você se lembra da primeira vez que esteve no set de um filme do seu pai?

Samantha – Na verdade, eu participei do filme Agonia e Glória (The Big Red One), mas minha participação foi cortada! Mas estou nos extras do DVD! Eu tinha 4 anos na época, mas só me lembro deste momento graças a estas imagens. Eu participei de Cão Branco (White Dog). Eu tinha uma linha no filme, que diz: “cadê meu cachorro?” Me lembro bem da filmagem de “Cão Branco”, foi filmado bem perto da nossa casa. Então era fácil para eu ir do set para casa. Eu adorava porque meu pai estava trabalhando com animais. Eu tinha 6 anos na época. Tínhamos 5 cachorros no set, cada um tinha sua especialidade. Um era bom para os closes, outros eram bons para atacar. Cada um tinha seu personagem. Mas eu ficava longe do cão de ataque. Eu gostaria de ter estado nos sets de seus filmes anteriores, mas eu ainda não tinha nascido. É o destino.

Bitsmag – Você menciona no seu documentário que seu pai ficou muito decepcionado com a reação ao filme “Co Branco. Tanto que ele decidiu se auto-exilar para Paris.

Samantha – Sim, claro. Ele ficou muito decepcionado. Foi uma decisão (de não lançar o filme comercialmente nos Estados Unidos) muito hipócrita. Era o início dos anos 80 era a época dos “blockbusters”: Caçadores da Arca Perdida, Guerra nas Estrelas, o estúdio não achou que o tema seria aceito na época. Mas claro que não é um filme racista. Foi uma decisão errada no estúdio. Por outro lado, nos mudamos para Paris, e vivemos uma vida maravilhosa lá. Foi o período mais feliz de nossas vidas juntos, em Paris. Não teríamos tido o mesmo relacionamento se tivéssemos ficado em Los Angeles. Graças ao filme, nosso relacionamento foi maravilhoso. Se tivéssemos ficado em LA, ele ficaria muito tempo no seu escritório e eu não teria ficado tão próxima dele. Mudamos para a França, para um pequeno apartamento e ficamos muito mais próximos. Isso fortaleceu muito nossa relação.

Bitsmag – Você utilizou um trecho do filme Pierrot Le Fou de Jean-Luc Godard, que tem uma participação incrível do seu pai. Sei que os críticos da Nouvelle Vague eram grandes admiradores do trabalho do seu pai. Como era a relação dele com estes diretores?

Samantha – Minha mãe (a atriz Christa Lang) participou de Alphaville do Jean-Luc Godard! Meu pai viveu na França em dois momentos. A primeira vez nos anos 1960, e depois quando ele foi para lá filmar Flowers of Evil, quando conheceu a minha mãe. Depois se mudaram para Los Angeles. Posteriormente voltou a Paris nos anos 1980, após Cão Branco. Ele era muito amigo dos diretores franceses como Truffaut e Chabrol.

Bitsmag – Você não pensou em convidar Godard para participar do seu documentário?

Samantha – Fiz o filme quase sem dinheiro. Todos os que aceitaram participar não ganharam nada pelo filme. Por sorte temos muitos talentos morando perto de casa, então não foi um problema escolher as pessoas para participar. Mas claro que adoraria ter Godard e Scorsese (que vive em Nova York) para participar, por exemplo. Minha mãe quer agora que eu faça uma continuação, focando mais na sua história.

Bitsmag – Tem uma outra citação que eu adoro, que é: “anyone who’s not confused, is not thinking clearly” (“todo mundo que não está confuso, não está pensando direito”).

Samantha  – É a mais pura verdade. É muito mais são estar confuso. É algo muito normal. E meu pai adorava polêmica. Qualquer um que tenha uma opinião forte sobre algo, é um cabeça dura. Sempre existem versões diferentes para cada história. Com certeza. É a mais pura verdade. Apenas pessoas simplórias, podem ter certeza de tudo. Acho que isso pode ser falta de inteligência.

Bitsmag – Hoje em dia no Brasil, existe uma grande turbulência política…

Samantha – Hoje em dia? E quando não foi assim? A paz mundial é um conceito maravilhoso, mas simplesmente não faz parte da natureza humana.

O conflito é o que nos leva para frente. Sem conflito, não há avanço.

Confira o trailer:

A Fuller Life: The Sam Fuller Documentary – Trailer from Samantha Fuller on Vimeo.

Upcoming documentary about the life of iconoclastic director Sam Fuller (The Big Red One, Shock Corridor, The Naked Kiss, White Dog). Directed by his daughter, Samantha Fuller. Featuring James Franco, Wim Wenders, Mark Hamill, Jessica Beals, Monte Hellman, Tim Roth, Joe Dante, Bill Duke, James Toback, Constance Towers, Buck Henry, and more.

See more at the official website: http://www.afullerlifedoc.com

 

 

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