Tiga toca no Rio em festa de cigarro

Bitsmag


677_01pPois é, um dos nomes mais quentes do electro mundial, o DJ alemão Tiga, que não usa óculos de noite, esteve no Brasil em outubro para apresentações no Rio e em S.Paulo. Mas saiba, caro leitor assíduo da coluna Bits da Madrugada, que somente os convidados de uma conhecida marca de cigarros ligada também a patrocínios da Fórmula 1, foram felizardos de presenciar os sets do DJ. Você também não vai ver matérias nos grandes jornais brasileiros, nem mesmo em nenhuma ignóbil revista de celebridade, nem nas de fofocas, nem nos sites futriquentos e nem nos mudernos. Nada, nadinha…

Porque isso? Porque o DJ veio contratado pra animar festa fechada de uma companhia de cigarros que, como se sabe, hoje em dia sofre com a proibição de toda e qualquer publicidade. É a mesma que pagou uma cota de patrocínio de R$ 250 mil pra colocar pontos de venda no Skol Beats 2004, mas sem publicidade nenhuma.

E, como havia antecipado a Folha de S.Paulo meses atrás, Tiga veio ao Brasil e tocou no Rio de Janeiro no sábado, 16 de outubro, em festa na Estação Leopoldina, depois de animada excursão ao Maracanã. Além disso tocou em S.Paulo na terça, 19 de outubro.

A festa com Tiga no Rio teve produção milionária: só o cachê do DJ, segundo boatos, foi de US$ 10 mil. A Estação Leopoldina foi toda decorada, o esquema 0800 de bebida e comida rolou solto e os convidados, que ninguém sabe de onde vieram, lotaram a festa. No quesito “fashion” a coisa foi praticamente uniforme: camisa “social” azul pros meninos, e nas meninas saia jeans mini, saltos altíssimos e o cabelón estilo escova japonesa impregnando o recinto. Entre os convidados nenhuma, mas nenhuma celebridade mesmo, nem meia celebridade ou daquelas tipo Big Brother (único ponto favorável da festa). Mas não tinha também ninguém que soubesse quem era o Tiga.

Quando chegamos, eu e meus amigos, quem tocava no salão hiper iluminado, que parecia mais um baile de debutantes no Clube Canaveral em Volta Redonda, era o DJ Marcelinho da Lua, aquele do clipe com Seu Jorge. Sim, o que ganhou o prêmio MTV. A pista (ou salão, melhor) bombava… Foi o momento que escolhemos pra aproveitar, furtivamente é claro, pois éramos todos penetras. Portanto prosseguimos em direção à mesa de “comes” e os balcões de “bebes”. Triste porvenir… Como já proferiu um caro amigo DJ carioca: “eu odeio bebida liberada” (hoje também nome de comunidade no Orkut). Em meio a rapazes espaçosos, todos com orelhas estranhas, não por serem trekkers mas sim por lutarem jiu jitsu, consegui receber um copo de whisky com energético, pra combater o sono… Não sem antes tomar vários banhos de bebidas as mais diversas, vindos de rapazes sem muita consiência corporal.

Mais estranheza ainda quando chegamos à mesa do bufê. Interessante: empresas de produções de eventos que vêm de S.Paulo geralmente julgam que ninguém sabe comer bem no Rio, posto que uma de nossas marcas registradas é a pizza sola-de-sapato-sem-molho-e-com-ketchup da Pizzaria Guanabara. Ignoram grandes chefs cariocas de renome internacional como Flávia Quaresma, Felipe Bronze ou Écio Cordeiro de Mello, todos responsáveis por grandes bufês da cidade. O que era aquele pedaço de beringela enrolada, ou aqueles outros tocos de queijos diversos ou ainda, umas circunferências esquisitas pra serem manuseadas com palito de dente que, tardiamente, descobri ser patê?!?!?! Felizes os rapazes de camisa “social” azul que passaram na Guanabara antes e embarcaram na pizza-sola… Eles só sofreram com o bufê na segunda rodada: a de pedacinhos de bolo… Francamente!

Desiludida já e morta de sono voltei para a pista-saloon (meus amigos tinham desistido do bufê faz tempo). Foi quando me deparei com foguinhos vindos de circenses que se posicionavam sobre os balcões de bebida liberada. Foi um anti-clímax realmente descobrir que havia mais um motivo pra não tentar mais um copo de bebida liberada, acrescida de banho batismal. Me resignei, parei e ouvi o som: Roberto Carlos… Marcelinho? O que houve com você? Que bicho te mordeu?

Ovacionado, Marcelinho da Lua passou o som para o grande convidado da noite: Tiga, o DJ gringo. A pista-saloon repleta, cheíssima e, quando entrou o Tiga, simplesmente a manada debandou… Entramos, felizes, ainda nos esquivando dos foguinhos, eu e meus amigos penetras. Basicamente umas 20 pessoas entre eu e meus amigos e outros notívagos cariocas que, como eu, se “dixcolaram” pra ver o Tiga. Informalmente montamos o comitê de recepção electro carioca para o alemão Tiga. Ainda bem, se não fossemos nós, os penetras, não restaria ninguém na pista-saloon.

Podem me chamar de mal humorada: não achei nada de mais o Tiga. Bom set, com certeza: começou com techno old school, bem gostoso e logo foi pra produções de electro techno, terminando com os hits Gigolo, claro. Mas o som do Tiga não justificou minha penetrada na festa de cigarro pra passar tamanho sofrimento me esquivando de foguinhos, de banho de bebida, de público equivocado, fora que a tal Estação Leopoldina é longe pra cacete…

Preocupada ainda em saber quem eram os VJs contratados perguntei pra um dos 10 funcionários da empresa produtora que ficavam no palco, quem seriam eles? Claro que ninguém sabia. Viajei imaginando imagens no telão compostas por aquelas "simpáticas" fotos que vêm atrás dos maços de cigarros hoje em dia. Coisas como bebês dançantes entubados ou ratos e baratas fumando e a fumaça dançante bailando ao som do electro techno do DJ. Tudo isso porque tinha um cartaz enorme, bem na cabeça do Tiga, com a clássica frase, "cigarro faz mal à saúde" . Uns 3 metros de altura de cartaz…

Agora, por favor, alguém me diga qual o propósito de uma festa dessas? Algo de gênero não custou menos de 3 dígitos, 3 dígitos grandes… Pra que trazer um DJ estrangeiro de renome, impedir o público de vê-lo com contratos que impedem o artista de se apresentar em outras festas ou clubes, pra ter um retorno xoxo do público camisa “social” azul que eles queriam atingir? Melhor promover uma festa sem bufê, chamar qualquer DJ da Nuth ou do Baronetti, avisar que tem “muié e bebida liberada” e economizar nos ítens pesquisados em revistas e sites mudernos: VJs, DJ alemão de electro, grandes equipamentos de iluminação, etc…

E assim vamos: lutando a mais de uma década pra desenvolver uma cena cultural eletrônica e de vanguarda neste país pra ver que o dinheiro que poderia estar sendo empregado em cultura ou em projetos sociais é “desaguado” sem dó em eventos sem sentido nenhum e mais, sem propósito visível de marketing. Parece mais é lavagem de dinheiro…

E não me falem em Tiga tão cedo!

Bitsmag