Melinda e Melinda – Desconstruindo o Cinema

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Filme de Woody Allen tem Rhada Mitchell e Will Farrell no elenco

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Melinda e Melinda é o melhor trabalho de Woody Allen nos últimos tempos. Quem conhece a obra do cineasta na última década não imagina a genialidade que ele tem. Nos anos 70 e 80, Woody viveu seu auge, especialmente com Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (Annie Hall). Seus últimos bons filmes foram Tiros na Broadway e Neblinas e Sombras. A vantagem é que um filme de Woody Allen, mesmo canhestro, ainda consegue ser acima da média.

Há quem o considere chato, com seus maneirismos que se repetem de filme para filme, mas um olhar mais atento vai revelar que cada obra busca uma inovação. Em Melinda e Melinda, Allen subverte a convenção cinematográfica de nos transportar para dentro da magia do cinema, nos motivar e fazer parte daquele universo como se ele fosse real. Uma convenção que ele já utilizou em A Rosa Púrpura do Cairo e agora escolhe mostrar a outra face. Partindo da premissa de que qualquer situação pode tomar rumos diferentes, ele segue os caminhos do drama e da comédia para contar a história de Melinda (Radha Mitchell) que chega de surpresa e interrompe um jantar.

Uma mesma situação, duas possibilidades. Desta forma, o diretor e roteirista Allen transita da comédia para o drama e vice-versa, mostrando que as duas realidades podem chegar a lugares bem distintos, com algumas semelhanças no caminho. O drama retrata Melinda, como uma antiga amiga de colégio, chegando no jantar de uma princesinha da alta-sociedade de Nova York (Chloe Sevigny) e seu marido Lee, um ator (Johnny Lee Miller). A comédia mostra Melinda, uma vizinha de prédio, chegando no jantar de Susan (Amanda Peet), uma diretora em ascensão e seu marido, um ator desempregado (Will Ferrell), que tentam convencer um investidor a bancar o próximo filme dela.

Em ambos os casos, Melinda é a catalisadora do adultério nas histórias. Essas cenas surgidas do ar, frutos de uma conversa de amigos num restaurante, evoluem mostrando o que deseja o cineasta, mas voltando aos amigos no restaurante, para desconstruir a magia do cinema, nos lembrando constantemente que as personagens não existem e que elas vão rumando na direção que se estabelece. Dessa forma, o público se distancia de Melinda e dos que estão ao seu redor, certos de que eles são ficção, embora um elo de interesse pela trama da comédia seja fácil de surgir. Melinda e Melinda ignora convenções estruturais de começo, meio e fim, mas tudo de forma proposital, para enaltecer a desconstrução. Permitindo que Woody seja inovador e tenha uma chance de brilhar como há muito não fazia.

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