Entrevista com o DJ e jornalista Jonty Skruff

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Entrevista com o DJ e jornalista  Jonty Skruff

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(Entrevista publicada em 18/03/2005) 

Além de publicar a newsletter de internet underground Skrufff-E, Jonty Skrufff lidera também a agência de imprensa independente Skrufff.com, escrevendo artigos sobre música, lyfe-style e comportamento para websites e revistas do Brasil à Austrália, passando por Hong Kong e Londres. Além disso, ele discoteca com um estilo high-energy e electro-disco-punk em clubes londrinos como o Electrogogo, Golf Sale e Drama.

Há 20 anos Jonty viveu, e quase morreu em NY, quando sofreu um terrível acidente de elevador no famoso e histórico clube Danceteria, onde fazia parte do staff. Esmagado e literalmente arrastado entre o elevador e a parede do poço, sofreu o que seriam normalmente 6 ferimentos mortais e recebeu a última comunhão 40 minutos depois, enquanto esperava na ante-sala de operações a anestesia fazer efeito. Milagrosamente ele sobreviveu e está aqui para contar a sua história …

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Danceteria, rua West 21, Cidade de NY: 21:19, 9 de Setembro de 1984.

‘Não quero quebrar minhas pernas!’

Estou pendurado pela ponta dos meus dedos na base do elevador que ainda está subindo, olhando as pilhas de lixo no fundo do poço que está uns 5 metros abaixo e penso rápido –incrivelmente rápido. Nesse momento o tempo parece parar enquanto calculo as opções entre continuar pendurado ou saltar, sabendo que a distância até o fundo é certamente para quebrar alguns ossos. “O último andar do prédio é o 12º”, penso, tomando uma decisão relativamente simples: ”Tenho que saltar (mas não quero quebrar as minhas pernas!), tenho que saltar agora! (‘NÃO QUERO QUEBRAR AS MINHAS PERNAS!’) “.

Então salto.

Enquanto caio, meu cérebro revisa todos os meus bancos de memória sobre os programas de TV que assistia quanto era criança e via pára-quedistas demonstrando técnicas de queda. Com uma memória precisa, me lembro deles caindo e rolando para diminuir o impacto, então faço o mesmo, para receber o impacto não nas pernas mas no braço. A técnica funciona quase que perfeitamente e, embora tenha quebrado o pulso esquerdo, não quebrei minhas pernas (estou caído e não sei de mais nada e nem importa).

Quase que imediatamente meu colega Micky está me olhando de um dos andares acima no poço do elevador, atraído pelos meus gritos dados momentos antes (ou melhor, gemidos, já que meu pulmão foi furado pelas costelas que quebraram). Tanto eu quanto ele somos funcionários do dia no clube Danceteria e, há alguns instantes, tínhamos estado carregando pacotes de gelo no porão onde eu dormi e fui pego.

“Que caralho aconteceu?” grita ele, olhando e vendo que o elevador ainda está em movimento ascendente “A porra da queda me quebrou, merda”, gemo, “estou fodido”

Micky está preocupado com a possibilidade do elevador chegar ao topo e depois descer em cima de mim para terminar o serviço, mas estou com tanta dor que não ligo a mínima e, além disso, minha voz interior me diz “não se mexa” (acho que minha espinha pode estar quebrada).

Minhas costas não estão quebradas, o elevador chega ao topo e para, então, não estou correndo mais nenhum perigo imediato, embora, como tenha dito ao Micky, estou definitivamente fodido.

Momentos antes, posso me lembrar de ter sido esmagado entre a base de metal do elevador e a parede de concreto do vão do fosso, embora outros detalhes do que aconteceu estejam em branco. Lembro-me de estar sendo enfiado nesse espaço mínimo, o que faz com que os órgãos no meu estômago sejam forçados a subir até minha garganta, enquanto o elevador começa a esmagar parte do meu corpo (meus braços e peito estão dentro do vão entre o elevador e a parede de concreto, meu quadril e pernas estão fora). Então apago literalmente como uma lâmpada, recuperando a consciência somente quando estou fora do vão, pendurado na base do elevador.

Anos depois, esta parte do acidente me preocuparia intensamente (“Estou realmente morto? Será que nasci novamente? Sou a mesma pessoa ou um espírito diferente?”). Logicamente, posso deduzir as respostas das queimaduras de 2º grau nas minhas costas e do meu torso esticado e esmagado dentro do pequeno vão. De alguma forma meu peito e meus ombros passaram sem um aranhão. Deduzo que devo ter sido arrastado até onde estão as portas de segurança do elevador (que estão recuadas 30 cm em comparação com as portas normais). Nesse momento devo ter me soltado do elevador, o que permitiu que minha cabeça e meus ombros passassem sem ferimentos!

Lá no fundo do poço estou xingando e com muita dor (embora a dor seja suportável: é ruim, mas não tão ruim assim) quando um desconhecido aparece e grita “vou chamar uma ambulância”. Bem vestido e muito calmo, desaparece pelas escadas e nunca mais o vejo (meu anjo da guarda?) e logo depois aparece uma unidade de tratamento intensivo e os paramédicos começam imediatamente a cortar todas as minhas roupas.

Como sempre, estou usando minha roupa normal para o dia, composta de calças pretas militares, uma t-shirt toda recortada e botas extremamente surradas da Doc Marten. Nada muito extremo, embora meu delineador e minha coleção de jóias (mais de 100 braceletes e correntes), verniz nas unhas e um corte de moicano façam com que o cara da ambulância me descreva na ficha do acidente como “homem branco, travesti, 20 anos.” Mais tarde isto causaria muito divertimento entre os meus amigos drag queens – posso usar acessórios, couro e maquiagem mas na noite não sou um travesti e sim um punk com muita atitude – se vou usar maquiagem, porque só um pouco e não muito? Gosto muito de garotas e de aproveitar as muitas oportunidades que chegam a mim pelo fato de ser um dos poucos "montados” heteros da cena clubber em Manhattam (não tenho competição!)

Disparando questões (“O que aconteceu? Qual é seu nome? Onde você mora? Você tem seguro?”), os caras da ambulância parecem saídos de algum programa da TV, eficientes, rápidos e pondo sob mim uma desconfortável maca onde me amarram e me carregam através da entrada principal do clube. Um pequeno grupo de clubbers se reuniu (o clube abriu somente minutos antes), e é enquanto saio do clube que, pela primeira vez, cogito a possibilidade de morrer.

”Estou tendo uma morte glamourosa, devo estar parecendo fantástico!”

Brinco, observando o círculo de caras curiosas que me observam. O sangue saindo da minha boca está com certeza complementando minha maquiagem e minha pele branca, penso, embora, quanto ao que se refira à morte, não estou nem um pouco preocupado (a única coisa que quero é que alguém pare a dor). E, por isto, estou xingando e suplicando aos caras da ambulância.

”Me droguem, porra, me droguem, merda, me desmaiem, merda, por favor “. Suplico, embora eles me ignorem ou respondem ”não podemos enquanto não chegarmos no hospital, você vai direto para a sala de operações”. Eles continuam fazendo perguntas “Você usa cocaína?” (“Não”), “quem é seu parente mais próximo (“ Micci, minha namorada “),” Qual é seu endereço?” (“Rua Ludlow esquina com a Houston”) “Você tem alguma última mensagem?” (“Não”), “Tem certeza que não usou cocaína esta noite?” (“Não!”). Aparentemente, se tivesse usado cocaína não poderiam ter me dado anestésicos imediatamente (o que significa que não poderiam me operar imediatamente, então com certeza morro) mas afortunadamente sempre enxerguei a cocaína como uma droga de yuppies que realmente não funciona, então normalmente (quase sempre) disse “Não”.

Cinco minutos depois estamos no hospital St Vincents no West Village, correndo de maca pelos corredores, o que me faz lembrar da TV novamente, embora a dor seja real. Agora estou na ante-sala de operações esperando ser anestesiado.

“Faça uma contagem regressiva a partir de 10”, disse o anestesista enquanto uma freira com toca branca aparece repentinamente.

“Você é católico?” ela pergunta.

”Não” (penso com extrema claridade sobre a religião dela: fui criado como católico mas neste preciso momento ela e sua religião não significam absolutamente nada para mim).

”Não, não sou“, respondo.

“Você quer a última comunhão?” pergunta ela. A persistência dela desencadeia uma outra série de pensamentos de onde concluo que a morte, inclusive a minha, não significa absolutamente nada.

“Não, não quero”. A freira começa a rezar da mesma forma. (“Eu disse não… “)

Três dias depois acordo numa unidade de cuidados intensivos cheio de tubos e ligado a uma máquina de respiração, rodeado de amigos. Micci, minha namorada esta ali, além da Laurie, meu encontro segredo para a noite do acidente (Micci tinha estado fora da cidade, Laurie é uma modelo maravilhosa com quem estive flertando e que dois anos depois terminou como uma estrela do grunge em Los Angeles). Imediatamente percebo que tenho que escolher e, sabendo que na realidade não sei nada sobre Laurie, pego a mão de Micci, fazendo com que Laurie saia imediatamente “bela forma de sair de um encontro – Ouch!” Fico sabendo que sobrevivi a 6 ferimentos mortais e que sou algo como um milagre médico, além de ferimentos adicionais como um braço quebrado, três costelas quebradas e queimaduras de segundo grau. Uma equipe de cirurgiões me operaram por mais de 8 horas, tirando nada menos do que 4 partes diferentes do meu corpo e me costurando numa peça só. Entendo também que a dor é relativa: me sinto muito melhor.

Pelos próximos 7 dias permaneço na unidade de cuidados intensivos, rodeado pela gentileza de amigos e até de desconhecidos da cena clubber de NY que me visitam continuamente para me dar ânimo. Tinha estado tocando guitarra com uma banda de garagem chamada Latex Sex Camp, que tinha feito sua última apresentação na Danceteria cinco noites antes, então agora conheço muitos punks e muitos deles também me conhecem.

E toda noite, quando meus visitantes e as enfermeiras já se foram, caio num mundo esquisito (aparentemente cortesia da fantástica combinação Demerol / Morfina que aplicam em mim a cada 4 horas) no qual vôo sobre a cidade e visito vários clubes. Estou numa “dieta” sendo alimentado por soro então acabo sem tomar nenhum líquido por 7 dias, louco de sede, tanto durante o dia quanto nos meus sonhos noturnos. A cada manhã volto ao meu quarto depois de ter “viajado” durante a noite toda e me encontro rodeado de visitantes que reconheço como indesejáveis: me parecem clubbers que morreram recentemente e que estão esperando para ver se vou me juntar a eles ou não. A noite de NY neste momento esta assombrada pela morte: a AIDS começou a fazer algumas vitimas enquanto as mortes por overdose e assassinato estão numa alta histórica.

Uma semana depois estou fora de perigo, os fantasmas da noite desapareceram e estou tendo que (sem muito ânimo) me encaixar novamente à vida e a todos os assuntos do dia-a-dia. Espiritualmente mudei irrevogavelmente, entendendo a morte (‘não tem nada do que ter medo’) e, mais importante ainda, a vida (‘aproveite ao máximo enquanto há’). Salvo pelas habilidades quase mágicas dos doutores e enfermeiras do St. Vincent, estou também consciente de ser parte de uma força que me manteve vivo para cumprir uma missão. Dias antes do acidente, um cachorro preto enorme tinha ficado me olhando tanto que até um amigo meu comentou; “esse cachorro está te olhando, toma cuidado”. Anos depois soube que em algumas culturas os cachorros pretos são um presságio de algo terrível, embora no momento do acontecimento eu já pressentisse que ele estava me olhando e vindo até mim.

Fui salvo também pelo meu desejo de redescobrir a sensação que estive vivendo 4 meses antes quando cheguei fresco e cheio de energia de Londres a NY. Meu sotaque inglês e look e lyfe-style punks abriram as portas de uma cena clubber que, para mim, nessa época, estava perto da definição de paraíso na terra e estou louco para abraçá-la novamente o quanto antes. Claro, como a música dos The Eagles “New Kid in Town Fable”, já perdi o paraíso para sempre, embora alguns anos depois viesse a descobrir uma cena parecida quando mergulhei na cultura rave. De fato, foi a partir disso que rapidamente me inspirei para começar a escrever sobre música, o que eventualmente me levou a iniciar o Skrufff em 2001.

20 anos depois (e três depois de ter iniciado Skrufff) os colaboradores incluem o Barefoot Doctor (nosso curandeiro Taoísta residente) e as figuras principais da revista Usless, Larry Tee e Conrad Ventur. Também contribuem meus parceiros em Londres Benedetta (minha melhor amiga e ex-mulher) e seu namorado Tom (nosso joalheiro oficial). Tom e Benedetta são também donos de Skrufff, nosso mentor espiritual e, sem dúvida, o Bull Terrier mais bonito do mundo. E falando em cachorros, não tenho visto mais aparições deles desde 1984, embora sempre esteja atento a próxima vez que um cachorro preto voltar.

Jonty Skrufff

http://www.skrufff.com (Inscreva-se aqui – we love it, Conrad & Larry)

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