Briga das paradas paulistas mobiliza cena eletrônica nacional

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O incidente da morte do rapaz de 16 anos Gutemberg Clarindo Oliveira, de apelido Guto, que se afogou no lago do parque do Ibirapuera no domingo à noite, após ter participado com amigos da Parada da AME, coloca em evidência mais que nunca a rivalidade entre a Parada da AME e a Parada da Paz, as duas paradas de música eletrônica de São Paulo. Há meses as duas organizações trocam acusações pela imprensa, através de seus sites oficiais e também através de emails para a comunidade da música eletrônica brasileira.

De um lado a AME, ONG criada por jornalistas de música eletrônica paulistas e alguns produtores de festas, que se associaram ao político Alexandre Youssef, da Coordenadoria da Juventude de São Paulo, para organizar a Parada da AME, que aconteceu domingo, 26 de outubro, em São Paulo. Do outro lado os responsáveis pela Parada da Paz: o Mercado Mundo Mix, a agência Bulldozer e a Sponge Produções, organizações que produzem, além do Mercado Mundo Mix, alguns dos mais importantes eventos da música eletrônica brasileira, como o Skol Beats, e agenciam top DJs nacionais como Marky, Renato Cohen e Anderson Noise, que têm carreira internacional.

A Parada da Paz, realizada há sete anos e evento pioneiro do gênero no Brasil, divulgou esta segunda-feira em email repassado para redações e para listas de pessoas ligadas à comunidade eletrônica brasileira, uma nota de pesar em relação à morte de Guto. Na nota a organização da Parada da Paz ressalta o fato de que o incidente da morte do rapaz, tendo acontecido durante a Parada da AME, pode prejudicar a comunidade de música eletrônica como um todo. A nota ainda remonta a todos os incidentes que resultaram na troca de acusações entre as organizações da Parada da Paz e da Parada da AME que têm acontecido durante o ano de 2003.

A organização da Parada da AME enviou, da mesma forma, por email e publicou em seu site oficial, uma nota respondendo às afirmações da organização da Parada da Paz. Todos lamentam a morte de Guto. Mas quem lamenta o mal estar entre pilares da música eletrônica brasileira que está ecoando por toda parte?

Ao mesmo tempo a Polícia Militar paulista ameaça lutar pelo fim da parada nas ruas de São Paulo, decisão que pode prejudicar não só a realização da Parada da AME, como também a realização da Parada da Paz, que deve acontecer em março de 2004 e pode abrir precendentes em relação à realização de eventos do gênero em outras cidades brasileiras.

A Parada da Paz é realizada em São Paulo há sete anos e nas duas últimas edições do evento, 2001 e 2002, teve apoio da Coordenadoria da Juventude da Prefeitura de São Paulo, representada por Alexandre Youssef. O político resolveu retirar o apoio da Prefeitura à Parada da Paz e associou-se à ONG AME (Amigos da Música Eletrônica) para realizar a Parada da AME, evento nos mesmos moldes da Parada da Paz e realizado na mesma data quando seria realizada a Parada da Paz 2003, que acabou não acontecendo, segundo a organização em virtude das diversas pressões da Coordenadoria da Juventude da Prefeitura de São Paulo.

A ONG AME foi criada este ano por jornalistas paulistas ligados à música eletrônica e por produtores de festas. Os responsáveis pela ONG justificam a entidade como um veículo de voz para os profissionais de música eletrônica brasileira. Nas acusações da entidade à organização da Parada da Paz e justificando a realização da Parada da AME, o motivo principal da realização de uma outra parada nos mesmos moldes da Parada da Paz, e na mesma data, é que a organização da Parada da Paz seria ruim, pois cobrava dos participantes o aluguel dos trios (os caminhões de música eletrônica). A Parada da AME deu a alguns selecionados o direito de participar da parada que foi amplamente patrocinada por grandes empresas de telefonia e outras, contrariando outra de suas maiores acusações à Parada da Paz: o patrocínio de grandes empresas a uma manifestação cultural popular.

Segundo a nota da Parada da Paz a Coordenadoria da Juventude nunca ajudou a organização a conseguir dinheiro para subsidiar os trios e “depois de uma parceria que rendeu um ótimo retorno de imagem ao órgão e à Prefeitura, resolvem fazer uma parada com a força da Prefeitura. Trocando em miúdos: patrocinada por você, contribuinte.”

O que houve entre Alexandre Youssef e a organização da Parada da Paz para que acontecesse tão radical cisão não é de conhecimento público, apesar das mútuas acusações. O político agora é ligado à AME, associação que reúne quase na sua totalidade jornalistas, incluindo de veículos poderosos como a Folha de São Paulo, jornal de maior circulação no país.

O infortúnio do acidente que aconteceu no domingo, resultando na morte por afogamento do rapaz Guto no lago do Ibirapuera, virou um estopim na discussão. Mas as implicações serão maiores que a simples e mútua troca de acusações entre as organizações das paradas paulistas. O incidente leva à tona, mais uma vez, temas como drogas, álcool e sua relação praticamente intrínseca, aos olhos da opinião pública, com a música eletrônica. Portanto os implicados somos nós: eu, você e nossos amigos que nos matamos para criar e manter uma cultura.

Beth Ferreira
Foto: Eduardo Zappia

Nota: Em novo e-mail enviado a redações e a pessoas ligadas à música eletrônica nacional, Bárbara Roig (da empresa Sponge e que trabalhou na organização da Parada da Paz) se retrata e afirma que a nota divulgada na segunda-feira não representa a visão das empresas Sponge e Bulldozer, apenas as suas visões pessoais sobre o incidente.