Bitsmag conversa com Larry Tee

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Bitsmag conversa com Larry Tee

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Larry Tee é inventor do termo “electroclash” e produtor do festival homônimo que revelou grandes nomes do gênero, como os Scissor Sisters e Avenue D. Antes disso Larry tinha sido um dos grandes DJs novairoquinos da década de 90, com sua festa Love Machine, que rolava em um dos prédios Factory de Andy Warhol e juntava as supermodelos, as celebridades e os "club kids" ao estilo Party Monster.

Larry Tee conversou por telefone com o Bitsmag. Brincalhão, falou sobre a morte do electroclash, sobre as bandas que ele aposta como sucesso certo e sobre a mudança na vida noturna de N.York, da “era narcótica” da noite nos anos 90 para a fértil época atual, com tantos talentos musicais sendo gerados na Big Apple.

Beth Ferreira: Olá Larry, aqui é a Beth Ferreira, do Rio, como vai?

Larry Tee: Oh, que exótico? Você está de biquini?

Beth Ferreira: (Ruborizada, lógico) Não, na verdade não… (Risos…)

Larry Tee: Adoro o Rio!

Beth Ferreira: Ótimo! Então, você vai tocar novamente aqui no próximo sábado…

Larry Tee: Sim, vou, no Dama de Ferro e ao lado de Mark Moore.

Beth Ferreira: Você o conhece?

Larry Tee: Claro!

Beth Ferreira: Você já tocou com ele antes?

Larry Tee: Sim, toquei no clube dele a última vez que estive em Londres, em junho deste ano.

Beth Ferreira: Ele é DJ a muito tempo.

Larry Tee: A quase tanto tempo quanto eu.

Beth Ferreira: Por isso pensei que vocês se conheciam desde o começo de suas carreiras.

Larry Tee: Sim, conheci Mark quando ele fez seu grande hit (The Theme from S-Xpress) no começo dos anos 90. Eu dirigia um clube chamado Love Machine, que era o grande clube de N.York na época. E tínhamos shows do S-Press, Dee-Lite, etc. Não tocávamos somente house, misturávamos muito. Eu o conheci nessa época.

Beth Ferreira: Como você começou a discotecar?

Larry Tee: Eu estava em Atlanta e tocava em várias bandas. Eu era bem novo e toquei numa banda que acabou fazendo o primeiro 12’’ do B-52’s. E no meio dos anos 80 eu tinha minha própria banda e ia muito a festas, mas não tinha boa música. Portanto comecei a discotecar porque não agüentava a música que se ouvia na época na maioria dos clubes. A disco já tinha cansado e fui discotecar num clube new wave. Eu tocava nesse clube o rap dos primórdios e tudo que os “new wavers” não queriam ouvir (risos). E foi isso: comecei a discotecar porque ninguém tocava as músicas que eu queria ouvir.

Beth Ferreira: E então você se mudou pra N.York…

Larry Tee: Sim, me mudei pra N.York com Ru Paul, figura popular por aqui. Você conhece o Ru Paul?

Beth Ferreira: Lógico!

Larry Tee: Enchemos uma van com Ru Paul e a drag Lady Bunny e fomos pra N.York, pra “escapar” de Atlanta. Porque já tínhamos feito tudo que podíamos em Atlanta, era hora de sair de lá e ir pra algum lugar novo. E começamos a trabalhar rápido em N.York pois parecia que não tinha muitos novos talentos na época. Então comecei a discotecar e tocava sets de 8 horas! E daí fiquei bom na mixagem. Em seis meses eu tinha tocado em todos os grandes clubes da época.

Beth Ferreira: Em que clubes você tocava nos anos 80 em N.York?

Larry Tee: Naquela época era o Tunnel.

Beth Ferreira: Sim, o Tunnel, eu ia lá…

Larry Tee: No Tunnel eu fiz a festa Celebrity Club e comecei a fazer uma festa rock’n roll num bar gay.

Beth Ferreira: Quando aconteceu isso?

Larry Tee: Em 89, 90… Era apenas “trash” rock em lugares como o Squeezebox. Mais uma coisa tipo “dance” rock. E tocava no Love Machine, essa que realmente teve grande êxito, onde tocamos pela primeira vez Supermodel (hit de Ru Paul produzido por Larry Tee). O público era bem glamuroso.

Beth Ferreira: Onde era o Love Machine?
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Larry Tee: Era na 17th Street com a Broadway em um dos edifícios Factory de Andy Warhol, no porão. Eu realmente não estava preparado para esse sucesso, que aconteceu tão rápido. Era uma coisa tipo Liza Minelli esbarrando nos caras do New Order, Sinead O’Connor e Tom Hanks. E (as supermodelos) Linda (Evangelista), Christy (Turlington) e Naomi estavam sempre lá. E tinha grupos de “voguers” (que dançavam e faziam poses como na música Vogue, de Madonna). Era um desses clubes loucos bem misturados. Isso foi em 1989, 1990. Essa foi a minha “introdução” a N.York. E foi mais ou menos nessa época que conheci Mark Moore.

Beth Ferreira: E aí você foi tocar no Disco 2000 (festa promovida por Michael Alig no clube Limelight)…

Larry Tee: Sim e o nome inclusive fui eu que criei para a festa. E nessa época me tornei um viciado em drogas. Eu tocava muito, em vários lugares, como o Limelight e a Twilo e eu não estava preparado. Acho que simplesmente não fui feito pra me drogar. Eu estou celebrando sete anos sem drogas nem bebida. Foi na noite do meu festival, o que foi bem legal. Foi minha festa de aniversário de sete anos sem drogas, no Outsider Electronic Music Festival (na quinta, 11 de novembro). Acho que este foi o meu melhor festival.

Beth Ferreira: Li em seu website que a ênfase este ano foi o novo rock eletrônico que mistura rap, funk e beats uptempo. Você pode explicar quais as novas direções que você quer mostrar?

Larry Tee: Eu gosto de shows ao vivo. As principais bandas da programação do Outsider Electronic Music Festival, como Whitey (Londres), The Glass e Dead Combo, eles são o novo rock. É tipo dance rock, rich punk, mas ainda assim eletrônico, com uma vibe de rock e vocais de rock. Já o grupo Glimmer Twins junta vocais de rap e coloca sobre músicas mais rápidas, portanto dando mais “velocidade” à música e mais balanço. Eu gosto também de Stink Mitt, canadenses de Vancouver, eles são fantásticos, misturando rap e funk, porém mais dançável que o hip hop, que é mais devagar e mais grave.

Beth Ferreira: Quais bandas você acha que vão fazer grande sucesso?

Larry Tee: Whitey vai ser grande este ano, junto com Milo, da Escócia, são minhas favoritas. Alter Ego também é uma das minhas favoritas, mais pro lado do techno. Eles têm uma música chamada Rocker, que é uma canção feita toda de eletronica.

Beth Ferreira: Como define o termo “electroclash”, inventado por você?

Larry Tee: Eu precisava de uma palavra pra definir meu festival. Precisava de algo que fosse fácil de dizer e atraente (“catchy”) e as pessoas, quando ouviam o nome, elas gostavam. Mas pra definir o tipo de música, isso foi coisa da mídia. Algumas pessoas têm a impressão de que eu registrei uma palavra que estava sendo usada coloquialmente o que, é claro, eu nunca faria. Eu nunca impediria alguém de usá-la. Mas registrei o nome pra meu festival, assim poderia chamar o festival de “electroclash” no ano seguinte. E, de repente, a palavra foi parar no dicionário, o que quer dizer que qualquer um pode usar.

Beth Ferreira: E foi por isso que você mudou o nome do festival?

Larry Tee: Bem, para mim, especialmente em se tratando de música dance, tem a ver totalmente com mudança. Eu não quero dançar a mesma coisa por dez anos. Acho que algumas pessoas querem, pois o house é ainda tão popular em tantos lugares… Mas eu ficaria muito entediado se tivesse que dançar a mesma música que eu dançava em 95. O meu primeiro festival teve o público clássico de electroclash, já o segundo foi mais fundo e trouxe gente como Scissor Sisters e Felix de Housecat. O terceiro foi mais trash, sexy e divertido com as “electro sluts” como Avenue D, Boy George e Funny Pack. Já o deste ano foi mais rock. Eu detestaria fazer um festival igual, ficaria entediado… Se você ouvir um set meu que se parece com um set que toquei dois anos atrás…Isso não vai acontecer.

Beth Ferreira: No começo do mês os 2 Many DJs tocaram no Brasil pela segunda vez. Quando os vi a primeira vez, aqui no Rio, foi fantástico, mas desta vez parecia que tocavam o mesmo set…

Larry Tee: Bem, todo mundo tem seu “som assinatura”. Tenho certeza que se você me ouvisse nos anos 80, provavelmente não era tão diferente da forma que toco hoje. Existe uma nova estética, a distorção. Mas a maneira como apresento a minha música é a minha assinatura… Nos anos 80 eu tocava Smiths e em seguida Chaka Khan e dali pra Kraftwerk. Agora eu tocaria Franz Ferdinand, depois um rock bem balanço e em seguida algo bem eletrônico, tudo no mesmo set. Então nós todos temos um “som assinatura”. Mas concordo que muitos DJs não querem mudar. Por isso tem muita gente que acha que sou o “mr. electroclash”. Como Ritchie Hawtin, ele vai tocar techno o resto da vida. Mas comigo não, pra que isso acontecesse eu teria de voltar às drogas (risos).

Beth Ferreira: Qual é o futuro do electroclash?

Larry Tee: O futuro do electroclash é a morte.

Beth Ferreira: O que?

Larry Tee: Morte: a morte do gênero.

Beth Ferreira: E quando você acha que isso vai acontecer?

Larry Tee: O electroclash deu a oportunidade das pessoas “atuarem” nos clubes novamente. De serem glamurosas novamente. Mas como formato eu acho que o “franchise” já foi passado adiante. Peaches é uma rainha, e os Fischerspooner são um bando de freaks, Felix é um “party guy”. Mas acho que o electroclash como som já foi. Acho ainda válido, gosto de ouvir, mas como força musical já fez o que deveria fazer. Agora fica para a próxima geração a incumbência de trazer algo diferente.

Beth Ferreira: Já ouviu o funk brasileiro?

Larry Tee: Sim, DJ Marlboro. E Lacraia: eu o vi na televisão e disse: “uau, isso parece divertido” e depois o vi num clube e o achei muito glamuroso.

Beth Ferreira: Estávamos falando sobre a Disco 2000 e os club kids dos anos 90. É uma era que acabou em N.York.

Larry Tee: Sim, nunca mais vai ser daquela forma.

Beth Ferreira: Porque?

Larry Tee: Bem, as drogas não estão mais tão disponíveis. A cidade está fechada pra isso. E as próprias drogas também se modificaram. O ecstasy e a ketamina daquela época, depois do 11 de setembro, não parecem apropriados. Esta não é uma “era narcótica” como foram os anos 90. As pessoas estão na cocaína e no chrystal method, o que é bem trágico, mas de qualquer forma é uma mudança. A vibração do clube muda. Na época do Disco 2000 eles deixavam qualquer pessoa entrar, nem precisava ser maior de 21 anos. Agora pra ir a clubes só sendo maior de 21 anos. As pessoas se vestiam de forma glamurosa e louca e eram bem mais jovens. Eram mais entusiasmados e gostavam de moda, uma coisa meio boba. Depois dos 21 anos você diz: “eu não posso parecer um bobo” e você pensa duas vezes quando chega aos 30… Isso tudo é uma coisa que definitivamente não está acontecendo em N.York hoje.

Beth Ferreira: O prefeito Giuliani mudou muito a noite de N.York, não foi?

Larry Tee: Bem, se você fosse ao Limelight e ainda por cima se fosse o prefeito, você teria que fazer alguma coisa (risos). Deus me livre! Tenho certeza de que quando se vai a uma festa no Brasil, no banheiro se pode encontrar cocaína e tudo mais. É importante que as pessoas tenham a liberdade de fazer o que querem. Mas na época, no momento em que se entrava num clube em N.York, já tinha alguém oferecendo special k, ecstasy e tudo mais. As pessoas empurravam as drogas em você. E havia milhares de pessoas lá: metade delas eram traficantes e metade eram viciados. Então isso tinha que mudar. Me lembro que pensava na época: “como é que isto está acontecendo?”. Eu sabia que não ia durar. A vida dos clubes vai em ciclos. A vida noturna hoje não é uma coisa tão entusiástica. Mas tem muita música boa sendo gerada em N.York. Portanto penso que as pessoas, ao invés de estarem se drogando nos clubes, elas estão em casa fazendo música. Existem hoje ótimas novas bandas: Scissor Sisters, Interpol e os Yeah, Yeah Yeahs – todas se tornaram disco de platina. Portanto isso pra mim é encorajador, já que as coisas estão decolando. É bastante estimulante. Os “club kids” nunca fizeram nada. Eles não tinham talento. Apenas vestiam plumas e usavam maquiagem, mas não havia muito o que recomendar.

Beth Ferreira: O que você acha de Bush ganhando as eleições americanas e o que vai acontecer agora?

Larry Tee: Eu sou um otimista. Sou muito desconfiado dos republicanos pois acho que fazem qualquer coisa para estar no poder. Eles trapaceiam pelo poder. Eu tendo a achar que existe um equilíbrio no universo e que o pé de Deus vai pisar neles e amassar todo o partido republicano (risos).

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