Bitsmag cancela cobertura do Festival do Rio 2005

Bitsmag

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Desculpem aí os usuários do Bitsmag que estão esperando novidades do Festival do Rio 2005. Fazíamos todos os anos, desde 1999, quando o Bitsmag foi lançado, um site especial de cobertura do festival com atualização em tempo real. Este ano resolvi abortar a cobertura que já tinha começado e nós não vamos destilar pra vocês o listão de “trocentos” filmes que a mostra traz ao Brasil, procurando as fitas, vídeos e documentários que têm apelo específico para vocês. Aqueles filmes bizarros ou com temas mais alternativos que constam das mostras Midnight, Gay ou Expectativa vão ter de ser experimentados a esmo por vocês este ano. Também não vão rolar as entrevistas com cineastas que só a gente aqui do Bits dá bola, e olha que tem um monte este ano que ninguém nunca ouviu falar.

O que aconteceu? Eu me cansei. Depois de uma interminável sessão do horroroso filme Três Extremos… onde três diretores asiáticos mostram o pior da estética de comerciais não admitida e com pretensão de arte e resquícios inevitáveis da cultura desgastada dos mangás, tive de voltar pra casa sem poder ver um dos únicos três filmes que valem à pena na mostra deste ano. Foi mais de uma hora esperando pra tentar entrar na sessão lotada de Last Days.

O problema é que nós da imprensa somos os últimos da “pirâmide” de importância dentro do festival. Depois que nos alimentam de notas falsas como a presença de Gus Van Sant, Cuba Gooding Jr. ou Spike Lee, que não deram o ar da graça e nem vão dar, nos fornecem uma credencial que serve para muito pouco. O tal crachá só nos é entregue depois que a mostra começa e nós temos que usar a credencial e mais ingressos para cada sessão. Esses ingressos são emitidos depois que a venda começa e não existem lugares reservados para a imprensa. Portanto nós não temos direito nenhum de ver os filmes mais cotados, que já estão com sessões lotadas antes de recebermos as credenciais, como Last Days, de Van Sant, Flores Partidas de Jim Jarmusch e Manderlay, de Lars Von Trier (todos já comprados e com exibição garantida no Brasil). Tem algumas cabines, muito poucas, de manhã, ou melhor, de madrugada e se o infeliz jornalista não pôde ver Last Days às 9 da manhã de uma segunda-feira que se dane… Existe uma brecha para o cinéfilo credenciado que não se importa em ser humilhado. Se ele fizer cara de mendigo depois que o filme começa pode ser que uma alma caridosa o deixe entrar na sessão já iniciada para ele ficar nos piores assentos, aqueles que ninguém quer de jeito nenhum, ou no chão.

Mas eu e meu colega de cobertura não pudemos entrar nem pra sentar no chão na sessão das 21h45min do Odeon no último domingo. Esperamos ali sem nos manifestar enquanto as hordas de órfãos do Nirvana tumultuavam a entrada, a maioria com seus ingressos comprados, mas muitos tentando dar o truque nos ineficazes funcionários do festival. Muitos entravam com um ingresso, saiam com vários bilhetes que já tinham sido furados pelos funcionários e, sob o pretexto de comprar pipoca, iam na rua e distribuiam esses ingressos já utilizados por seus colegas amantes de Kurt Cobain que guardavam lugar para os amigos lá dentro. Resultado? Super lotação.

Observávamos os truqueiros felizes quando aparece uma senhora alterada, com expressão de desespero, pedindo que a gente fosse embora, sem mesmo pedirmos pra entrar. Ela se apresentou como Vilma, diretora do Festival do Rio. Nós que já estávamos revoltados com a inépcia dos funcionários e as dezenas de pessoas que entravam no cinema sem pagar debaixo do nariz deles, ainda tivemos que lidar com o nervosismo dessa senhora.

Pois então, num domingão chuvoso, eu e meu colega de site despencamos da Barra da Tijuca pra ver o pior filme do mundo no centro do Rio de Janeiro e depois ainda fomos enxotados do festival que este site apóia desde sempre… Aqui na desprezada e satirizada Barra da Tijuca cinema é o que não falta: são 36 salas de Multiplex (UCI, Cinemark e Via Parque) mais 5 salas de filmes menos comerciais (Rio Design e Barra Point), fora que na minha casa assino SKY e tenho mais de vinte canais de cinema, vários canais de pay per view e posso ainda alugar um dos filmes do festival que já foram lançados em DVD. E eu no Palácio, na Cinelândia, vendo a desgraça do Três Extremos…, morta de sono, virada depois da cobertura do Nokia Trends. No alto de minha revolta disse à senhora desesperada, diretora do festival, que eu só tinha visto porcarias este ano, o que é a realidade, infelizmente, e que eu não ganhava nada pra fazer cobertura jornalística do festival. Acabei não dizendo que não só não ganho nada como ainda pago pra fazer a cobertura, já que conto com a ajuda de um jornalista free lancer. Sem pensar que também ajudo a patrocinar o evento, bem como todos nós cariocas ajudamos, já que ele é co-patrocinado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, ou seja, pelo dinheirinho dos nossos impostos. Nós não temos polícia, nem hospitais decentes, mas temos duas assessorias de imprensa numa mostra de cinema.

Foi assim, trabalhando feito um burro de carga, que pude produzir as coberturas especiais do Festival do Rio em anos anteriores, quando inclusive colocamos os leitores do Bitsmag pra conversar no chat com cineastas como John Waters e Curtis Hanson ou o insuportável artista plástico americano Julian Schnabel que mostrou aqui um filme truque e destratou todo mundo que esteve em contato com ele no Festival do Rio em 2000.

Pra completar a viagem perdida e a humilhação de ser mal tratada, no dia seguinte ainda recebo um telefonema de um senhor (tinha voz de homem) que se identificou como Liége Monteiro, coordenadora da assessoria de imprensa do Festival do Rio. Estranhei, afinal em oito anos de cobertura (cinco com Bitsmag mais três pelo portal ZAZ/Terra) nunca recebi um release sequer dessa assessora mas sim da sempre atenciosa assessoria do grupo Estação. A pessoa em questão disse que estava me ligando “em nome do Festival do Rio” pra me passar as regras (controversas) aplicadas aos jornalistas que cobrem o festival. Antes que eu pudesse dizer que sim, eu havia tentado pegar ingressos para o filme mas estes estavam esgotados, essa senhora começou a levantar a voz e me ameaçar com a temível possibilidade de me tirar a fantástica e inútil credencial que só me dá direito a ver bombas como Três Extremos…. Risível. Como se não fosse muito mais simples e barato pra mim comprar um passaporte pra ver os filmes do festival, ao invés de trabalhar como eu faço todo ano e ainda por cima pagar por um free lancer pra me ajudar.

Enquanto a pessoa vociferava no telefone tentando me mostrar todo seu poder eu tentava lembrar de passagens onde tive o desprazer de cruzar com a tal assessora. Ela se alterou mesmo quando eu disse que o que eu teria feito se estivesse no lugar da diretora do festival e em reconhecimento a uma pessoa da imprensa que leva cinéfilos (pagantes) para sua mostra, principalmente para os filmes menos conhecidos, seria o de me pedir gentilmente para esperar o início da sessão e então dizer aos funcionários que fossem achar um lugar no enorme balcão do Odeon.

Acontece que eu não mereço esse tratamento gentil, o que eu mereço é uma sessão de broncas e ameaças de uma assessora de imprensa de celebridades, coisa que eu e vocês, leitores do Bitsmag, todos abominamos. E durante esse pesadelo de telefonema tive os flashbacks de passagens desagradáveis como as vezes que cumprimentei essa senhora na entrada das festas do festival e ela me virou a cara por não me conhecer, afinal se o festival já tem parceria com O Globo, o maior jornal da cidade, o resto da imprensa e principalmente esse povo de sitezinhos desconhecidos que se lixem. Ou quando ela e sua comitiva tentaram me impedir de entrevistar o diretor Kevin Fitzgerald de Freestyle, the Art of Rhyme, em 2004. Esse episódio é um dos melhores exemplos de assessoria que atrapalha ao invés de assessorar.

Eu havia marcado a entrevista com bastante antecedência, não que alguém da imprensa estivesse interessado no Kevin, diretor de um documentário sobre rappers que fazem rimas nas periferias americanas. Porém, quando cheguei no Hotel Meridien, vários funcionários procuravam pelo cineasta mas ele havia “desaparecido”. Não estava no quarto, nem no restaurante, nem no bar. Estranho porque tive um “insight” e fui diretamente na recepção, pedi para ligarem no apartamento e ele estava lá e me disse que estava lá o tempo todo.

Seria um mal entendido ou seria porque depois que eu fiz várias matérias sobre o cineasta antes da entrevista a assessoria acordou e resolveu marcar um “evento midiático televisionado” envolvendo uma conversa entre Kevin e o rapper Marcelo D2? Engraçado que a tal entrevista que seria gravada pela TV Globo, seria igual ao que eu preparei para a minha entrevista, levando a promoter de festas de hip hop Elza Cohen: um bate-papo entre duas pessoas do mundo do rap. E ela ainda acabou oferecendo a Kevin o espaço de sua festa que acontecia no 00 às sextas feiras para ele mostrar seu documentário que acabou tendo uma sessão muito mais badalada que no próprio festival, que teve sala vazia na premiére.

Pois o 00 acabou valendo a vinda de Kevin ao Rio, gerando matérias em outros veículos bem como a minha entrevista no Bitsmag, porque de resto nada rolou, incluindo o “evento midiático televisionado” que acabou nem acontecendo. Afinal a tenda do festival em Copacabana não é a Daslu e Marcelo D2 não apareceu, em mais uma de suas clássicas demonstrações de falta de palavra.

É por essa e por outras que resolvi retirar do Bitsmag a cobertura especial do Festival do Rio 2005. O evento já é um sucesso sem precisar de imprensa, as sessões são lotadas e quem não entra nos filmes mais cotados acaba se enfiando nas bombas como esse Três Extremos… que deveria ser proibido de ser exibido pelo grau de violência gratuita. O Festival do Rio 2005 não precisa do Bitsmag, segundo eles próprios e eu não preciso de credencial pra ver filme ruim.

Mas vocês não ficarão sem dicas: Cidade Baixa, o melhor filme brasileiro de 2005, vai ser lançado nos cinemas em breve (aguarde nossas entrevistas já realizadas com Sérgio machado e Alice Braga), bem como os principais filmes do festival, portanto nem pense em sair de casa com essa chuva horrorosa pra ficar brigando por ingressos em sessões lotadas. Procurem nas suas locadoras pois já existem títulos do festival em DVDs importados, como Crash e Lords of Dogtown. Last Days não demora muito pra sair também em DVD e de resto, bem, curta aí sua TV a cabo que tem muito mais programação que a encheção de linguiça que está o Festival do Rio 2005.

Agora alguém aí na platéia pode me dizer porque nós, contribuintes da cidade do Rio de Janeiro, temos de pagar por um evento com duas assesorias de imprensa? Ainda mais que uma delas é uma senhora que não assessora, não conhece os veículos e as pessoas que têm trabalhado cobrindo o festival a anos e nem está interessada em conhecer, fazendo cara feia em entrada de festas ou gritando no telefone. “Assessoria” esta que ao invés de tentar arrumar espaço na imprensa para os convidados do festival menos famosos ainda prejudica estes, como quase prejudicou Kevin Fitzgerald no ano passado, não fosse a minha obstinação em entrevistá-lo.

Talvez este ano até fizesse sentido essa senhora estar capitaneando a festa de estréia do evento na Quinta da Boa Vista, que não saiu em lugar nenhum da imprensa, nem colunas sociais da cidade. Afinal os abandonados palácios da Quinta constituíam o cenário perfeito para uma festa temática do filme A Noiva Cadáver de Tim Burton, que faz parte do Festival do Rio 2005, ainda mais com a própria como anfitriã.

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